Sylvia Plath suicidava-se em Londres, deixando uma obra que é um strip-tease da alma com lamentos em forma de versos
A melancolia costuma aparecer nos finais de tarde, naquela hora em que todo mundo está fragilizado, sem forças para resistir às dores do mundo. Simultaneamente, como amigas inseparáveis, a ausência de objetivos e a depressão sussurram no ouvido de suas vítimas que essa angústia precisa ter um fim e que nada mais tem sentido. É hora de tomar uma decisão. Frieda (três anos) e Nicholas (um ano) foram colocados a salvo, no andar de cima. A janela do quarto ficou entreaberta, apesar da neve torrencial que caía lá fora. As frestas da porta foram vedadas com alguns panos. Junto da cama das crianças, pão e leite. A porta da cozinha também foi vedada. Lentamente, para cumprir as muitas mortes que haviam sido anunciadas pelos versos tristes e complicados de sua poesia, Sylvia Plath abriu o forno do fogão. Colocou dentro um pano dobrado. Provavelmente ajoelhou-se, como a verificar se alguma coisa poderia estar errada. Depois, deitou-se a cabeça sobre o pano, dentro do fogão. Abriu a torneira do gás. E esperou, com resignação, o fim de todos os problemas.
Trinta anos de existência foram suficientes para inscrever o seu nome, de forma definitiva, no confuso e sempre antagônico mundo literário que, separado pelo Oceano Atlântico, chamamos de anglo-americano. . Sylvia Plath é cada vez mais famosa porque sempre existirá alguém querendo contar as intrigas e as fofocas que envolveram a sua existência, e, particularmente, os seus últimos meses de vida. Já foram escritas, pelo menos, uma meia dúzia de biografias. Uma delas, "Bitter Fame", possui tradução no Brasil, "Amarga Fama" (Rocco, 1982) um título primoroso, retirado de dois versos de Anna Akhmatova (outra mulher talentosa e complicada): "Se não podes dar amor e paz/Dá-me então amarga fama".
SILÊNCIO OBSESSIVO Além disso, no caso de Plath, como um acréscimo que só serve para aguçar a curiosidade geral, há o silêncio obsessivo de seus filhos e de Ted Hughes, o ex-marido. Todos adotaram "um distanciamento educado", essas coisas que aos ingleses são caras e que para nós, latinos, acostumados em "lavar a roupa em público", nunca passaram de "frescura". Mas, claro, não se trata "apenas" de colocar as coisas em ordem, nos seus devidos lugares.
Durante parte de sua vida o suicídio foi uma constante há provas que ela tentou o encontro com a morte em, no mínimo, duas vezes. Durante a temporada que passou no Smith College, a sua vida foi dividida entre os muitos namorados, as sucessivas crises de depressão e a pretensão de seguir uma carreira literária (publicou contos em diversas revistas e ganhou vários prêmios). É mais ou menos nesse período, ao saber que algumas de suas estórias haviam sido recusadas, que ocorre a sua primeira tentativa de suicídio, ingerindo barbitúricos. A situação é tão deprimente que Plath é internada, por quatro meses, no Hospital McLean, em Belmont (Massachusetts). Entre outras delícias terapêuticas, eletrochoques. Depois, voltou à universidade, namorou bastante, graduou-se com um estudo sobre o duplo em Dostoievski e foi para a Inglaterra. Em Cambridge, "barbarizou" nem mais, nem menos. Com seu nasalado sotaque americano provocou inquietação no mundo aparentemente seguro dos ingleses. Freqüentou aulas, conheceu gente, fez teatro e foi à França. Quando retornou, nova crise nervosa e a inevitável visita ao psiquiatra. Aquelas coisas todas que alfinetam a alma e o existir humano No final de fevereiro de 1955, na festa de lançamento da "St. Botolph's Review", conhece Ted Hughes. Foi amor ao primeiro olhar, atração fatal, cena de conto de fadas. Em carta para sua mãe, relata a impressão que o jovem poeta inglês lhe causou: "A coisa mais dilacerante é que nos últimos dois meses eu me apaixonei terrivelmente, o que só pode levar a muito sofrimento. Conheci o homem mais forte do mundo, ex-Cambridge, poeta brilhante cuja obra eu já adorava antes de conhecê-lo, um Adão alto, forte e saudável, meio francês e meio irlandês, com uma voz que lembra a trovoada de Deus cantor, contador de histórias, leão e viajante, um vagabundo que jamais vai parar". A fúria da paixão foi tão grande que eles casaram quase seis meses depois, no dia 16 de junho (foi proposital a escolha pelo "Bloomsday" data em que se passa a ação do romance "Ulisses", de James Joyce). O que aconteceu depois é apenas a repetição monótona do velho drama que atinge jovens casais: como colocar alguma comida na mesa? A procura de um emprego os levou a mudanças constantes. Finalmente, em março de 1957, Sylvia foi aceita como professora auxiliar no Smith College. Foi o seu retorno aos Estados Unidos. Nesse período, o fracasso literário passa a rondar a sua poesia, vários concursos devolveram os poemas enviados - com Ted as coisas estavam acontecendo exatamente ao contrário: muitos prêmios, publicações, resenhas favoráveis. No começo de janeiro de 1959 o casal Hughes voltou para Londres. Foi o início de uma série de bons acontecimentos: a carreira literária de Ted deslanchou, Frieda Rebecca nasceu em abril e "The Colossus and Other Poems", o primeiro livro de Sylvia, foi publicado em setembro. Em 60, um aborto, apendicite e a suspeita de que Ted estava cometendo adultério fizeram com que Sylvia tivesse uma série de crises nervosas. Em compensação, a atividade poética é intensa. Em 61, eles mudaram para Court Green, em North Devon. Nessa casa isolada, no interior da Inglaterra, é que o mundo começa a desabar parar Sylvia Plath. O sucesso profissional de Ted o leva a fazer viagens cada vez mais freqüentes a Londres. Com duas crianças pequenas (Nicholas nasceu em janeiro), uma obra poética densa e as velhas crises nervosas dizendo: olá, tudo bem?, não foi fácil segurar a barra. O pior foi constatar que Ted estava de caso com Assia Wevill. Como todo "british gentleman", Ted chegou a sugerir uma separação "civilizada" que acabou não acontecendo. A raiva e o rancor passaram a fazer parte do dia-a-dia do casal. Em setembro de 62, Ted vai morar em Londres. O que se seguiu foi uma nova mudança para Londres. Sylvia alugou um apartamento (23, Fitzroy Road Yeats morou nesse endereço) e deixou Devon. Em janeiro, o seu romance "The Bell Jar" ("A Redoma de Vidro", Editora Globo) é publicado na Inglaterra, sob o pseudônimo de Victoria Lucas. As crises nervosas se sucedem em maior intensidade. O seu médico, dr. Horder, lhe recomendara que empregasse Myra Norris, uma enfermeira. No dia 11 de fevereiro, quando chegou ao apartamento Myra sentiu um cheiro muito forte de gás. Pediu ajuda. A porta foi arrombada. As crianças tinham frio. Poesia e dor A importância de Sylvia Plath está no tom confessional de seus versos, no "eu" dividido, nas imagens tormentosas, quase discursivas. O seu discurso poético nos remete ao inferno interior, à amargura, ao desespero e a todas aquelas coisas que alfinetam a alma e o existir humano. Não é uma poesia fácil, agradável, para ser lida em saraus ou no ouvido da namorada. Por outro lado, é de uma riqueza impressionante, cheia de energia, agressiva como um desabafo ou um tapa no rosto. Há quem diga que Sylvia Plath é uma espécie de mártir do feminismo americano. Ledo e ivo engano. Sylvia não estava interessada nesse tipo de ativismo político, inclusive porque suas neuroses não a deixavam em paz. A força de sua poesia brota espontaneamente do seu estar-no-mundo e não do mundo que nela deveria estar. Em 1965, Ted Hughes permitiu a publicação do volume póstumo "Ariel", que reúne o melhor de sua produção poética. No Brasil, há várias traduções esparsas de Sylvia Plath, mas uma boa introdução à sua poesia pode ser "Poemas de Sylvia Plath" (Ed. Iluminuras), traduzido por Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça. Um encontro com o passado Talvez para marcar os trinta e cinco anos de morte de sua primeira esposa, Ted Hughes está lançando, na Inglaterra, uma coleção de 88 poemas confessionais. O livro se chama "Birthday Letters" (Cartas de Aniversário) e, segundo a crítica britânica, será o acontecimento literário do ano. É ver para crer. Os poemas são uma espécie de declaração de amor tardio, um reencontro com o passado. Com uma linguagem que mistura o fervor religioso da paixão com o entusiasmo juvenil, Hughes derrama pelos versos o desespero de quem quer nos fazer acreditar que sempre esteve apaixonado por Sylvia Plath. Uma tarefa árdua e que talvez apareça tarde demais.
A angústia de Sylvia Plath
A leitura de seu diário permite ver como uma escritora mágica,
uma moça sadia, vaidosa, espontânea, irônica e sensível,
foi acometida de uma neurose
A fama de Sylvia Plath como escritora está irremediavelmente ligada à repercussão do seu suicídio. Os poemas mais conhecidos estão no livro Ariel, publicado dois anos depois de sua morte e foram, na maioria, escritos nos seus últimos meses de vida. Durante o final da década de 50, Sylvia Plath era considerada uma escritora completa, porém alternativa, vivendo à sombra do talento do marido, o poeta inglês Ted Hughes. Escreveu um romance angustiado, The bell jar (1963), publicado sob pseudônimo, dias antes de morrer. Poucos, com certeza, teriam adivinhado que seria capaz de produzir poemas de tamanha força como os últimos que escreveu, combinando desespero enfurecido e altíssimo nível técnico literário.
Seus poemas são atormentados e profundamente inteligentes. Por expressar raiva e dirigi-los praticamente contra os homens, como em Daddy (Papaizinho), Plath foi canonizada pelas feministas durante as décadas de 70 e 80, que usaram indevidamente sua obra para suscitar polêmicas. Quando esse fanatismo passou, pôde-se perceber que sua poesia era realmente única, dotada de um misterioso jorro de eloquência poética.
Sylvia Plath suicidou-se em 1963. Se ela tivesse sobrevivido à terceira e última tentativa de pôr fim à vida, talvez não soubesse justificar a origem dos poemas de Ariel (1965). Hughes publicou uma coletânea (Collected poems), com textos inéditos de Sylvia, em 1981, que recebeu o prêmio Pulitzer em 1982. Os poemas são encantadores e inimitáveis e possivelmente influenciaram inúmeros poetas ao longo dos últimos 30 anos.
Os diários de Plath
Hoje, a tradução completa de seus diários permite ver, dia após dia, como uma escritora mágica, uma moça sadia, vaidosa, espontânea, irônica, hipersensível, foi acometida de uma neurose. Seus diários se assemelham a uma longa novela de Fitzgerald cujo personagem fosse verdadeiro, dotado de lucidez total e de coragem igualmente grande para enfrentar os problemas íntimos.
Duas coisas chamam particularmente a atenção nesses diários: de um lado, é a capacidade da estudante Sylvia Plath de nos mergulhar mais uma vez nas ondas luminosas daquela época do pós-guerra e um lado "American Graffitti" e, de outro, a terrível transformação de seu estilo mágico em imagens convencionais quando começa a viver com o poeta Ted Hugues. As pequenas estradas verdes e brancas de Cap Code, as noites de chuva primaveril de Cambridge, a insolência natural dos retratos, tudo perde seu verniz, seu brilho.
Vida breve
Nascida em 1932, no Estado de Massachusetts, numa família de origem austríaca, ela fez estudos brilhantes no Smith College. O pai morreu quando ela tinha 8 anos. Em 1953, tentou matar-se. Em 1957, seu marido, Ted Hughes, publicou The Hawk in the Rain, primeira coletânea de poemas que o tornaria célebre.
Em 1962, Hughes encontrou outra mulher e abandonou Sylvia. Em junho, numa casa de campo, em Devon, ela escreveu seus mais belos poemas, que compõem a coletânea Ariel, movida por verdadeiro frenesi. Antes do Natal, solitária, desamparada, mudou-se com os filhos para uma casa em Londres, onde viveu Yeats. Na manhã de 11 de fevereiro de 1963, depois de preparar o leite das crianças, escreveu um bilhete e abriu o gás da cozinha. Sua morte a tornou tão célebre quanto Hemingway e se instalou um culto em torno de sua obra e de sua vida.
JACQUES-PIERRE AMETTE - AE
Hoje, Sylvia Plath ainda provoca polêmicas nos jornais americanos e ingleses. Fazem-se acusações a seu marido. Mas todos ficam estupefatos com a essência fugaz de sua arte, como diante de um monte de cinzas após uma noite de grande festa, como se o vento do entusiasmo tivesse levado uma geração à beira de uma praia, incapaz de abordar essa vida adulta que todos haviam deixado de levar em conta.
Mais do que uma obra literária, seus diários continuam a ser os misteriosos fragmentos de uma juventude americana, que devorava o sexo, suco de grapefruit, a brancura da aurora, a intensidade, o brilho fugaz da existência. O mundo da nova América era visto por cima dos óculos redondos de uma Lolita que leu O Apanhador nos Campos de Centeio, de Salinger, até a exaustão.
Em tudo Silvia Plath mostra preocupação constante para o valor musical das palavras. Em The Colossus a inquietação quase parece excessiva como se fosse um preparatório para Ariel. A musicalidade é um elemento da poesia difícil de se falar, sentida e não sentida que chegam quase a tocar-se num movimento contínuo.
Não é somente em relação aos instintos que ela liberta a sua linguagem poética da alienação. Porque se este grau de transgressão se manifesta como falso respeito ao nível lexical, este vem de forma muito mais direta. Não tanto na suposição gratuita das palavras consideradas "pouco poéticas" (na verdade nenhuma palavra é pouco poética que a outra), mas com a perseguição tenaz das expressões precisas que num poeta inspirado (ou seja - qualquer coisa dita) é mais um resultado de uma necessidade interior que uma abstrata normativa da poética [ou dito de outra forma: o poeta com "qualquer coisa dita" pode perseguir uma expressão precisa]. Isto poderia a primeira vista complicar a tarefa do tradutor e por conseguinte ao leitor. Quem sabe não?! Porque nos resta (a mim e a vc leitor) o fator constitutivo fundamental da própria língua do poeta: a exatidão do original que nos leva a certeza da tradução e da leitura. Rendemo-nos ao acontecimento que não deve e não pode subtrair certas paisagens obrigatórias.
Nas suas poesias, e principalmente as derradeiras, Sylvia Plath torna-se ela mesma, imaginária criação selvagem e delicada: não uma pessoa, nem mulher, nem ao certo uma poetisa (ou poeta); porém uma daquelas heroínas clássicas mais que reais: hipnóticas. Não tanto para ser feminina ou fêmea, ou ainda, para ser os elementos costumeiros que nos distingue como mulher. A sua voz - ora fria e divertida, irônica, acida, sonhadora, pueril e agraciada - pode-se fazer áspera e destoante como uma exclamação vampiresca - Dione, Fedra ou Medea a quais sabem ri de si mesmas. Os versos se repetem, parecem estarem perdidos na linha mas o seu idioma jamais morre.
Tudo em Plath lembra-nos pessoal, confessional e profundo sentimento. Entretanto, nela a forma do sentir é a controlada alucinação, a autobiografia de uma febre. O queimor da ânsia que se move para uma cavalgada, uma viagem, um vôo da abelha rainha forçada a alcançar os batimentos cardíacos ofegantes.

POESIAS:
http://br.geocities.com/edterranova/sylviapoe.htm