AR tE (reS)piRo


09/11/2010


ASSURBANIPAL MAGIC CLUB

Leva a divertida e reflexiva humanidade do universo do swing para além do preconceito e dos clichês através de textos pesquisados pelo elenco no swing paulistano, Paroni, Lima, Nietsche,Espinosa, Barthes, Camus, grego antigo (Euripedes).

Experiência radical, é um espetáculo-manifesto formado por várias microtramas, presentes nas estórias vividas por personagens que podem ou não responder a eventuais perguntas do público. Narra-se a lógica dos encontros num clube de swing. através das relações entre os atores (nus na penumbra do fundo do palco) com as personagens vestidas no proscênio iluminado, onde emergem aleatoriamente. Ao final, há um trecho de um show de entretenimento real: o Mago adivinhará o pensamento de algumas pessoas presentes no ambiente do espetáculo.

As personagens são uma ex-socialite ninfomaníaca, uma jovem incestuosa, uma máscara de serva provençal, uma promoter e segurança de club de swing, uma filósofa ciumenta, um delegado em crise existencial, uma trabalhadora sexual, um aventureiro e o mago mentalista Follini, além do diretor do espetáculo.


ASSURBANIPAL MAGIC CLUB
com

Érika Forlim
Helena Magon
Janine Corrêa
Josué Torres
Leandra Demarchi
Mago Follini
Mauricio Paroni de Castro
Patrícia Aguille
Raissa Peniche
Rodrigo Zappa

Produção e realização Atelier de Manufactura Suspeita
Direção e composição cênica e dramaturgia Mauricio Paroni de Castro
Colaboraram Adriana Vaz Ramos, Célio Amino, Sara Gassal, Simonia Queiroz,Thais Simi, Otavio Azevedo, Eugenio Scoletta – funções variáveis no decorrer das réplicas do espetáculo
Administração Sylvia Soares


Espaço dos Sátyros 1

Todas as Segundas-feiras às 21 00
Duração 1 hora e quinze minutos.
Ingressos R$ 30,00 e R$ 15,00 (Estudantes, Classe Artística e Terceira Idade); R$ 5,00 (Oficineiros dos Satyros e moradores da Praça Roosevelt).

Telefone 3289 2358
Desaconselhável a menores de 18 anos

 

Escrito por Raissa Eckmann Peniche às 19h16
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04/12/2008


SYLVIA PLATH

A morte como transcendência

 a poesia de Sylvia Plath

Sylvia Plath nasceu em 27 de outubro de 1932 e matou-se em 11 de fevereiro de 1963, quanto tinha apenas 30 anos. Até então sua única obra poética era The Colossus, publicado em 1960. Mas são os poemas escritos após a publicação de seu primeiro livro que a transformaram em um mito da poesia contemporânea. Seus últimos dez meses de vida foram marcados por uma intensa atividade poética que gerou seus melhores poemas, uma obra que a alçou ao patamar dos grandes poetas do século.

 Plath é costumeiramente classificada como poeta confessional. Neste sentido, sua vida é retratada fielmente em sua poesia, de alto grau emocional. Plath sempre foi marcada por uma forte instabilidade, fruto do trauma causado pela morte de seu pai quando ainda era uma criança de oito anos. A morte de seu pai foi a gênese da imagem do colosso masculino, do deus másculo e onipotente que ela ao mesmo tempo adorava e repudiava.

 Sua vida foi marcada pela sombra de homens que considerava poderosos e opressores, figuras que ao mesmo tempo a inspiravam e a diminuíam. Ao lado de seu pai, Plath posicionou em seu pódio seu marido Ted Hughes, também poeta, homem que ela admirava profundamente. Plath divinizava estas duas figuras masculinas e as inseriu em sua poesia na forma do mito do deus ausente ou morto, cuja ausência ou morte ora é lamentada e ora é celebrada.

 Seu casamento com Ted Hughes lhe proporcionou a parceria ideal e Hughes substituiu em certa medida a figura paterna que a assombrava. Ambos dividiam os mesmos interesses e as mesmas leituras. Hughes era para ela o grande mentor que a educava e contribuía para seu aprimoramento. Os dois chegaram a abandonar suas profissões para viver apenas a poesia, mudando-se dos Estados Unidos para Londres, Inglaterra, em 1959. Este período marcou o início de sua fase madura, demonstrando claramente como sua vida íntima se refletia em sua poesia.

 No entanto, o ápice de sua produção poética só seria atingido após um período conturbado e traumático. Em julho de 1962 Plath descobre o envolvimento adúltero de Hughes com outra mulher e seu mundo desmorona. Plath percebe que vivia uma fantasia e esta constatação dá início à produção de seus maiores poemas. O divórcio consuma-se em outubro deste mesmo ano, um momento de intensa criatividade. Deste período são os poemas mais fortes e mórbidos de Plath. A morte está mais presente do que nunca. Seu imaginário é preenchido por sangue, desmembramento, ossos e órgãos internos que criam imagens muito fortes em sua poesia.

 Plath muda-se em dezembro com seus dois filhos para um apartamento em Londres durante um dos mais frios invernos do século. Em janeiro, cerca de um mês antes de seu suicídio, é publicado The Bell Jar, um romance autobiográfico que explora seu passado e seus traumas.

II

 A biografia de Sylvia Plath certamente é essencial para a compreensão de sua poesia, haja visto o poder de influência de seu pai e de seu marido em sua criatividade. Seus maiores poemas, tais como "Daddy", "Lady Lazarus", "Purdah" e "Fever 103°", refletem com grande força suas experiências existenciais. No entanto, a classificacão de Plath na categoria de poetas confessionais representa também o perigo de subestimar outras facetas de sua poesia que são tão importantes quanto o caráter biográfico da mesma. Em um estudo brilhante datado de 1975, Judith Kroll faz uma excelente análise da face mítica da poesia de Plath. Segundo Kroll, o mito do grande deus morto lamentado pela deusa amante ou mãe é o ponto crucial na obra de Plath. Seu pai e seu marido representavam este deus poderoso. A admiração que Plath tinha por ambos se mesclava com um sentimento de ódio, pois apenas a destruição de ambos lhe daria a autonomia para crescer. Somente livre da sombra destes homens ela podia desenvolver seu potencial criativo.

 De igual importância na poesia de Plath é o mito da lua, adorada como deusa em muitas culturas primitivas. A lua é o símbolo da inspiração poética, significando para Plath seu destino enquanto criadora, sua musa e sua guia. A lua está presente de forma explícita em muitos poemas, especialmente em sua fase madura, e sua influência enquanto mito pode ser sentida mesmo nos poemas em que não é mencionada de forma explícita. Em "Edge", que é muito provavelmente o último poema escrito por Plath, a lua assiste a tudo impassível, como uma presença implacável. Em "Elm" ela é "impiedosa".

 O branco, cor mais significativa em sua poesia, é sempre o símbolo da morte, ou renovação, iminente. Nos poemas escolhidos aqui sentimos sua presença no "branco zinco", nas "nuvens", na palidez cadavérica, na "serpente branca", no "leite", no "açúcar", no "capuz ósseo" da própria lua.

 A idéia da morte na poesia de Plath não representa apenas o fim, a eliminação definitiva e completa de sua identidade. A morte mítica muitas vezes marca o início de um novo ciclo. Em muitos mitos absorvidos pela poesia de Plath a morte do deus é seguida por seu renascimento. É este o sentido da morte em sua poesia. Seu desejo de morte é nada menos que o desejo de transcendência, de renovação. Para Plath a morte é o fim de um estágio e o início de um período superior de vivência. Este viés interpretativo dá uma nova dimensão à poesia de Sylvia Plath, uma obra magnífica que se sustenta entre as maiores do século, a despeito dos fatos trágicos que marcaram sua vida.

A arte de
morrer de Sylvia Plath

Há exatos 40 anos morria em Londres a poeta Sylvia Plath, uma das principais revelações literárias americanas do século 20. Ela teve uma vida curta cometeu suicídio aos 30 anos asfixiada pelo gás de cozinha em sua casa, enquanto os dois filhos pequenos dormiam, mas muito intensa, escrevendo compulsivamente poemas que lidavam direta ou indiretamente sobre sua agonia interior, sobre os limites extremos da alma que beiravam o delírio, a loucura. Muito de sua obra refere-se à morte, como no poema "Lady Lazarus," um dos mais emblemáticos e lembrados por críticos e estudiosos: "Morrer é uma arte, como tudo o mais. Nisso sou excepcional".
Mas o que distingue Sylvia Plath de outros autores de poesia com tom confessional é a arte conduzida pela poeta a partir desses estados psicológicos, analisa a professora doutora em inglês (literatura) Maria Lúcia Milléo Martins, que conheceu a obra da escritora quando ainda cursava o mestrado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde leciona atualmente. "Ela ousou, acima de tudo, sem ser melodramática", explica ela. Outro ponto que deve ser notado é a linguagem enxuta, sem floreios e acessórios, observa Maria Lúcia.
Seus poemas repercutiam um estado de espírito e suas experiências, entre elas, duas tentativas de suicídio. A primeira aconteceu em 1953, um ano após permanecer em Nova York como redatora na revista "Mademoiselle". Em textos como "Lady Lazarus", ela descreve as tentativas de pôr um fim a tudo, de "acabar com tudo e nunca mais voltar".
Depois de Frieda, Sylvia Plath sofre um aborto, uma apendicite e engravida novamente. Em 1962, mesmo ano de nascimento de Nicholas, ela e Ted Hughes resolvem se separar (mais tarde Sylvia descobria o envolvimento amoroso dele com outra mulher) e a poeta tenta pela segunda vez livrar-se do sofrimento tentando se matar. O livro "Redoma de Vidro" ("The Bell Jar"), único romance escrito por ela e publicado semanas antes de sua morte, dá título a um sentimento que ela vivera durante toda a vida, diz Maria Lúcia Milléo Martins. "Ela fala muito desse senso de isolamento, de uma atmosfera rarefeita em uma redoma de vidro, como algo a ser experimentado num laboratório".

 (...)

Escrito por Raissa Eckmann Peniche às 00h51
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Sylvia Plath suicidava-se em Londres, deixando uma obra que é um strip-tease da alma com lamentos em forma de versos

A melancolia costuma aparecer nos finais de tarde, naquela hora em que todo mundo está fragilizado, sem forças para resistir às dores do mundo. Simultaneamente, como amigas inseparáveis, a ausência de objetivos e a depressão sussurram no ouvido de suas vítimas que essa angústia precisa ter um fim e que nada mais tem sentido. É hora de tomar uma decisão. Frieda (três anos) e Nicholas (um ano) foram colocados a salvo, no andar de cima. A janela do quarto ficou entreaberta, apesar da neve torrencial que caía lá fora. As frestas da porta foram vedadas com alguns panos. Junto da cama das crianças, pão e leite. A porta da cozinha também foi vedada. Lentamente, para cumprir as muitas mortes que haviam sido anunciadas pelos versos tristes e complicados de sua poesia, Sylvia Plath abriu o forno do fogão. Colocou dentro um pano dobrado. Provavelmente ajoelhou-se, como a verificar se alguma coisa poderia estar errada. Depois, deitou-se ­ a cabeça sobre o pano, dentro do fogão. Abriu a torneira do gás. E esperou, com resignação, o fim de todos os problemas.

Trinta anos de existência foram suficientes para inscrever o seu nome, de forma definitiva, no confuso e sempre antagônico mundo literário que, separado pelo Oceano Atlântico, chamamos de anglo-americano. . Sylvia Plath é cada vez mais famosa porque sempre existirá alguém querendo contar as intrigas e as fofocas que envolveram a sua existência, e, particularmente, os seus últimos meses de vida. Já foram escritas, pelo menos, uma meia dúzia de biografias. Uma delas, "Bitter Fame", possui tradução no Brasil, "Amarga Fama" (Rocco, 1982) ­ um título primoroso, retirado de dois versos de Anna Akhmatova (outra mulher talentosa e complicada): "Se não podes dar amor e paz/Dá-me então amarga fama".

SILÊNCIO OBSESSIVO Além disso, no caso de Plath, como um acréscimo que só serve para aguçar a curiosidade geral, há o silêncio obsessivo de seus filhos e de Ted Hughes, o ex-marido. Todos adotaram "um distanciamento educado", essas coisas que aos ingleses são caras e que para nós, latinos, acostumados em "lavar a roupa em público", nunca passaram de "frescura". Mas, claro, não se trata "apenas" de colocar as coisas em ordem, nos seus devidos lugares.

Durante parte de sua vida o suicídio foi uma constante ­ há provas que ela tentou o encontro com a morte em, no mínimo, duas vezes. Durante a temporada que passou no Smith College, a sua vida foi dividida entre os muitos namorados, as sucessivas crises de depressão e a pretensão de seguir uma carreira literária (publicou contos em diversas revistas e ganhou vários prêmios). É mais ou menos nesse período, ao saber que algumas de suas estórias haviam sido recusadas, que ocorre a sua primeira tentativa de suicídio, ingerindo barbitúricos. A situação é tão deprimente que Plath é internada, por quatro meses, no Hospital McLean, em Belmont (Massachusetts). Entre outras delícias terapêuticas, eletrochoques. Depois, voltou à universidade, namorou bastante, graduou-se com um estudo sobre o duplo em Dostoievski e foi para a Inglaterra. Em Cambridge, "barbarizou" ­ nem mais, nem menos. Com seu nasalado sotaque americano provocou inquietação no mundo aparentemente seguro dos ingleses. Freqüentou aulas, conheceu gente, fez teatro e foi à França. Quando retornou, nova crise nervosa e a inevitável visita ao psiquiatra. Aquelas coisas todas que alfinetam a alma e o existir humano No final de fevereiro de 1955, na festa de lançamento da "St. Botolph's Review", conhece Ted Hughes. Foi amor ao primeiro olhar, atração fatal, cena de conto de fadas. Em carta para sua mãe, relata a impressão que o jovem poeta inglês lhe causou: "A coisa mais dilacerante é que nos últimos dois meses eu me apaixonei terrivelmente, o que só pode levar a muito sofrimento. Conheci o homem mais forte do mundo, ex-Cambridge, poeta brilhante cuja obra eu já adorava antes de conhecê-lo, um Adão alto, forte e saudável, meio francês e meio irlandês, com uma voz que lembra a trovoada de Deus ­ cantor, contador de histórias, leão e viajante, um vagabundo que jamais vai parar". A fúria da paixão foi tão grande que eles casaram quase seis meses depois, no dia 16 de junho (foi proposital a escolha pelo "Bloomsday" ­ data em que se passa a ação do romance "Ulisses", de James Joyce). O que aconteceu depois é apenas a repetição monótona do velho drama que atinge jovens casais: como colocar alguma comida na mesa? A procura de um emprego os levou a mudanças constantes. Finalmente, em março de 1957, Sylvia foi aceita como professora auxiliar no Smith College. Foi o seu retorno aos Estados Unidos. Nesse período, o fracasso literário passa a rondar a sua poesia, vários concursos devolveram os poemas enviados - com Ted as coisas estavam acontecendo exatamente ao contrário: muitos prêmios, publicações, resenhas favoráveis. No começo de janeiro de 1959 o casal Hughes voltou para Londres. Foi o início de uma série de bons acontecimentos: a carreira literária de Ted deslanchou, Frieda Rebecca nasceu em abril e "The Colossus and Other Poems", o primeiro livro de Sylvia, foi publicado em setembro. Em 60, um aborto, apendicite e a suspeita de que Ted estava cometendo adultério fizeram com que Sylvia tivesse uma série de crises nervosas. Em compensação, a atividade poética é intensa. Em 61, eles mudaram para Court Green, em North Devon. Nessa casa isolada, no interior da Inglaterra, é que o mundo começa a desabar parar Sylvia Plath. O sucesso profissional de Ted o leva a fazer viagens cada vez mais freqüentes a Londres. Com duas crianças pequenas (Nicholas nasceu em janeiro), uma obra poética densa e as velhas crises nervosas dizendo: olá, tudo bem?, não foi fácil segurar a barra. O pior foi constatar que Ted estava de caso com Assia Wevill. Como todo "british gentleman", Ted chegou a sugerir uma separação "civilizada" ­ que acabou não acontecendo. A raiva e o rancor passaram a fazer parte do dia-a-dia do casal. Em setembro de 62, Ted vai morar em Londres. O que se seguiu foi uma nova mudança para Londres. Sylvia alugou um apartamento (23, Fitzroy Road ­ Yeats morou nesse endereço) e deixou Devon. Em janeiro, o seu romance "The Bell Jar" ("A Redoma de Vidro", Editora Globo) é publicado na Inglaterra, sob o pseudônimo de Victoria Lucas. As crises nervosas se sucedem em maior intensidade. O seu médico, dr. Horder, lhe recomendara que empregasse Myra Norris, uma enfermeira. No dia 11 de fevereiro, quando chegou ao apartamento Myra sentiu um cheiro muito forte de gás. Pediu ajuda. A porta foi arrombada. As crianças tinham frio. Poesia e dor A importância de Sylvia Plath está no tom confessional de seus versos, no "eu" dividido, nas imagens tormentosas, quase discursivas. O seu discurso poético nos remete ao inferno interior, à amargura, ao desespero e a todas aquelas coisas que alfinetam a alma e o existir humano. Não é uma poesia fácil, agradável, para ser lida em saraus ou no ouvido da namorada. Por outro lado, é de uma riqueza impressionante, cheia de energia, agressiva como um desabafo ou um tapa no rosto. Há quem diga que Sylvia Plath é uma espécie de mártir do feminismo americano. Ledo e ivo engano. Sylvia não estava interessada nesse tipo de ativismo político, inclusive porque suas neuroses não a deixavam em paz. A força de sua poesia brota espontaneamente do seu estar-no-mundo e não do mundo que nela deveria estar. Em 1965, Ted Hughes permitiu a publicação do volume póstumo "Ariel", que reúne o melhor de sua produção poética. No Brasil, há várias traduções esparsas de Sylvia Plath, mas uma boa introdução à sua poesia pode ser "Poemas de Sylvia Plath" (Ed. Iluminuras), traduzido por Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça. Um encontro com o passado Talvez para marcar os trinta e cinco anos de morte de sua primeira esposa, Ted Hughes está lançando, na Inglaterra, uma coleção de 88 poemas confessionais. O livro se chama "Birthday Letters" (Cartas de Aniversário) e, segundo a crítica britânica, será o acontecimento literário do ano. É ver para crer. Os poemas são uma espécie de declaração de amor tardio, um reencontro com o passado. Com uma linguagem que mistura o fervor religioso da paixão com o entusiasmo juvenil, Hughes derrama pelos versos o desespero de quem quer nos fazer acreditar que sempre esteve apaixonado por Sylvia Plath. Uma tarefa árdua e que talvez apareça tarde demais.

A angústia de Sylvia Plath

A leitura de seu diário permite ver como uma escritora mágica,
uma moça sadia, vaidosa, espontânea, irônica e sensível,
foi acometida de uma neurose

A fama de Sylvia Plath como escritora está irremediavelmente ligada à repercussão do seu suicídio. Os poemas mais conhecidos estão no livro Ariel, publicado dois anos depois de sua morte e foram, na maioria, escritos nos seus últimos meses de vida. Durante o final da década de 50, Sylvia Plath era considerada uma escritora completa, porém alternativa, vivendo à sombra do talento do marido, o poeta inglês Ted Hughes. Escreveu um romance angustiado, The bell jar (1963), publicado sob pseudônimo, dias antes de morrer. Poucos, com certeza, teriam adivinhado que seria capaz de produzir poemas de tamanha força como os últimos que escreveu, combinando desespero enfurecido e altíssimo nível técnico literário.

Seus poemas são atormentados e profundamente inteligentes. Por expressar raiva e dirigi-los praticamente contra os homens, como em Daddy (Papaizinho), Plath foi canonizada pelas feministas durante as décadas de 70 e 80, que usaram indevidamente sua obra para suscitar polêmicas. Quando esse fanatismo passou, pôde-se perceber que sua poesia era realmente única, dotada de um misterioso jorro de eloquência poética.

Sylvia Plath suicidou-se em 1963. Se ela tivesse sobrevivido à terceira e última tentativa de pôr fim à vida, talvez não soubesse justificar a origem dos poemas de Ariel (1965). Hughes publicou uma coletânea (Collected poems), com textos inéditos de Sylvia, em 1981, que recebeu o prêmio Pulitzer em 1982. Os poemas são encantadores e inimitáveis e possivelmente influenciaram inúmeros poetas ao longo dos últimos 30 anos.

Os diários de Plath

Hoje, a tradução completa de seus diários permite ver, dia após dia, como uma escritora mágica, uma moça sadia, vaidosa, espontânea, irônica, hipersensível, foi acometida de uma neurose. Seus diários se assemelham a uma longa novela de Fitzgerald cujo personagem fosse verdadeiro, dotado de lucidez total e de coragem igualmente grande para enfrentar os problemas íntimos.

Duas coisas chamam particularmente a atenção nesses diários: de um lado, é a capacidade da estudante Sylvia Plath de nos mergulhar mais uma vez nas ondas luminosas daquela época do pós-guerra e um lado "American Graffitti" e, de outro, a terrível transformação de seu estilo mágico em imagens convencionais quando começa a viver com o poeta Ted Hugues. As pequenas estradas verdes e brancas de Cap Code, as noites de chuva primaveril de Cambridge, a insolência natural dos retratos, tudo perde seu verniz, seu brilho.

Vida breve

 

Nascida em 1932, no Estado de Massachusetts, numa família de origem austríaca, ela fez estudos brilhantes no Smith College. O pai morreu quando ela tinha 8 anos. Em 1953, tentou matar-se. Em 1957, seu marido, Ted Hughes, publicou The Hawk in the Rain, primeira coletânea de poemas que o tornaria célebre.

Em 1962, Hughes encontrou outra mulher e abandonou Sylvia. Em junho, numa casa de campo, em Devon, ela escreveu seus mais belos poemas, que compõem a coletânea Ariel, movida por verdadeiro frenesi. Antes do Natal, solitária, desamparada, mudou-se com os filhos para uma casa em Londres, onde viveu Yeats. Na manhã de 11 de fevereiro de 1963, depois de preparar o leite das crianças, escreveu um bilhete e abriu o gás da cozinha. Sua morte a tornou tão célebre quanto Hemingway e se instalou um culto em torno de sua obra e de sua vida.

JACQUES-PIERRE AMETTE - AE

Hoje, Sylvia Plath ainda provoca polêmicas nos jornais americanos e ingleses. Fazem-se acusações a seu marido. Mas todos ficam estupefatos com a essência fugaz de sua arte, como diante de um monte de cinzas após uma noite de grande festa, como se o vento do entusiasmo tivesse levado uma geração à beira de uma praia, incapaz de abordar essa vida adulta que todos haviam deixado de levar em conta.

Mais do que uma obra literária, seus diários continuam a ser os misteriosos fragmentos de uma juventude americana, que devorava o sexo, suco de grapefruit, a brancura da aurora, a intensidade, o brilho fugaz da existência. O mundo da nova América era visto por cima dos óculos redondos de uma Lolita que leu O Apanhador nos Campos de Centeio, de Salinger, até a exaustão.

Em tudo Silvia Plath mostra preocupação constante para o valor musical das palavras. Em The Colossus a inquietação quase parece excessiva como se fosse um preparatório para Ariel. A musicalidade é um elemento da poesia difícil de se falar, sentida e não sentida que chegam quase a tocar-se num movimento contínuo.

Não é somente em relação aos instintos que ela liberta a sua linguagem poética da alienação. Porque se este grau de transgressão se manifesta como falso respeito ao nível lexical, este vem de forma muito mais direta. Não tanto na suposição gratuita das palavras consideradas "pouco poéticas" (na verdade nenhuma palavra é pouco poética que a outra), mas com a perseguição tenaz das expressões precisas que num poeta inspirado (ou seja - qualquer coisa dita) é mais um resultado de uma necessidade interior que uma abstrata normativa da poética [ou dito de outra forma: o poeta com "qualquer coisa dita" pode perseguir uma expressão precisa]. Isto poderia a primeira vista complicar a tarefa do tradutor e por conseguinte ao leitor. Quem sabe não?! Porque nos resta (a mim e a vc leitor) o fator constitutivo fundamental da própria língua do poeta: a exatidão do original que nos leva a certeza da tradução e da leitura. Rendemo-nos ao acontecimento que não deve e não pode subtrair certas paisagens obrigatórias.

Nas suas poesias, e principalmente as derradeiras, Sylvia Plath torna-se ela mesma, imaginária criação selvagem e delicada: não uma pessoa, nem mulher, nem ao certo uma poetisa (ou poeta); porém uma daquelas heroínas clássicas mais que reais: hipnóticas. Não tanto para ser feminina ou fêmea, ou ainda, para ser os elementos costumeiros que nos distingue como mulher. A sua voz - ora fria e divertida, irônica, acida, sonhadora, pueril e agraciada - pode-se fazer áspera e destoante como uma exclamação vampiresca - Dione, Fedra ou Medea a quais sabem ri de si mesmas. Os versos se repetem, parecem estarem perdidos na linha mas o seu idioma jamais morre.

Tudo em Plath lembra-nos pessoal, confessional e profundo sentimento. Entretanto, nela a forma do sentir é a controlada alucinação, a autobiografia de uma febre. O queimor da ânsia que se move para uma cavalgada, uma viagem, um vôo da abelha rainha forçada a alcançar os batimentos cardíacos ofegantes. 

 

POESIAS:

http://br.geocities.com/edterranova/sylviapoe.htm

 

Escrito por Raissa Eckmann Peniche às 00h50
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03/12/2008


"I want to burn, even if I break myself. I live only for ecstasy. Nothing else effects me. Small doses, moderate loves- all these leave me cold. I like extravagance, heat... sexuality which bursts the thermometer! I am neurotic, perverted, destructive, fiery, dangerous- lava, inflammable, unrestrained. I feel like a jungle animal who is escaping captivity." -
[Anais Nin]

 

 

Escrito por Raissa Eckmann Peniche às 00h09
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BORGES

Jorge Luís Borges

 Espelhos, labirintos, caminhos, sonhos, mundos paralelos. Ler Borges é entrar no mundo da
metafísica, um mundo que não tem começo nem fim.

Falar Borges é falar o infinito, o imortal, é adentrar nos hexágonos da
Babel para vivermos a maior das experiências com o mestre dos infinitos labirintos. Por isto ele é imortal. Está dentro de cada um de nós como um ser integrante o qual interage conosco sem que percebamos, dada a sua
importânciae infinitude. Ele é completo; dobra-se, desdobra-se e redobra-se em conjunto com os seus infinitos "eus".

Falar sobre Borges tbm  é tão fácil quanto achar um livro na Biblioteca total  , A Biblioteca de Babel

"A Biblioteca de Babel" é um conto que invade um espaço poucas vezes explorado na literatura:
O infinito.  Como é a Biblioteca? Um narrador bastante impessoal dá início ao conto descrevendo
fisicamente a Biblioteca, sendo ela física ou não.

"O universo (que outros chamam a Biblioteca), constitui-se de um número indefinido, e quiçá
infinito, de galerias  hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por
varandas baixíssimas.   De qualquer hexágono,  vêem-se os pisos  inferiores e superiores:
interminavelmente. A distribuição das galerias é invariável.  Vinte estantes, em cinco longas
prateleiras por lado, cobrem todos os lados menos dois; sua altura, que é a dos andares, excede
apenas a de um bibliotecário normal.  Uma das frentes livres leva a um saguão  estreito, que
desemboca em outra galeria, idêntica à primeira e a todas." J.L.B. A Biblioteca de
Babel.

Os saguões e prateleiras da Biblioteca de Babel não tem fim. Ela guarda todos os volumes de
todos os livros que já foram escritos, que serão escritos, e inclusive os que nunca serão;
são estes todos os livros imaginários e possíveis. Parece estranho? E é.  Muito estranho. 
Talvez seja por essa razão que

Ao longo do conto Borges inventa (sim, inventa) uma série de fatos que teriam ocorrido como
consequência da existência da Biblioteca e seus infinitos livros.   Existe o problema dos
livros cuja escrita é indecifrável. Existem também aqueles que acharam que deveria-se destruir
as obras inúteis. No entanto, o que provou-se inútil foi tentar interferir na existência da
Biblioteca, já que
é tão imensa que toda redução de origem humana resulta infinitesimal.

Outro problema: já que a Biblioteca tem todos os livros do mundo como encontrar aquele que seja
a síntese de todos os outros? Um método regressivo, quem sabe...

Para localizar o livro A, procurar previamente o livro B, que indique o lugar de A; para
localizar o livro B, consultar previamente um livro C, e assim até o infinito... 

As situações criadas em vista da infinidade da Biblioteca são fantásticas.
Borges desafia todos os nossos conceitos de tempo, espaço, mundo, realidade e irrealidade a
serem vistos sob novas perspectivas.

O LABIRINTO

Este é o labirinto de Creta. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro, que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tntas gerações como Maria Kodama e eu nos perdemos naquela manhã e continuamos perdidos no tempo, esse outro labirinto.

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Interessante:

JLB: centro de estudos
Centro de estudos de Borges de um universidade
da Dinamarca.  Muito interessante.  Em inglês, espanhol e francês.
Borges
Biografia, informações, poesia. Em inglês.
The Modern World - Borges
O melhor e mais completo site em inglês que eu encontrei.
The Garden of Jorge Luis Borges
Contos inteiros, inclusive a Biblioteca de Babel.  Em inglês.
The Life and Works of Jorge Luis Borges

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"Luas, marfins, instrumentos e rosas,
Traços de Dúrer, lampiões austeros,
Nove algarismos e o cambiante zero,
Devo fingir que existem essas coisas.
Fingir que no passado aconteceram
Persépolis e Roma e que uma areia
Subtil mediu a sorte dessa ameia
Que os séculos de ferro desfizeram.
Devo fingir as armas e a pira
Da epopeia e os pesados mares
Que corroem da terra os vãos pilares.
Devo fingir que há outros. É mentira.
Só tu existes. Minha desventura,
Minha ventura, inesgotável, pura."

"Habré de levantar la vasta vida
que aún ahora es tu espejo:
cada mañana habré de reconstruirla.
Desde que te alejaste,
cuántos lugares se han tornado vanos
y sin sentido, iguales
a luces en el día.
Tardes que fueron nicho de tu imagen,
músicas en que siempre me aguardabas,
palabras de aquel tiempo,
yo tendré que quebrarlas con mis manos.
¿En qué hondonada esconderé mi alma
para que no vea tu ausencia
que como un sol terrible, sin ocaso,
brilla definitiva y despiadada?
Tu ausencia me rodea
como la cuerda a la garganta,
el mar al que se hunde."

 



"Naquele preciso momento o homem disse:
O que eu daria pela felicidade
de estar ao teu lado na Islândia
sob o grande dia imóvel
e de repartir o agora
como se reparte a música
ou o sabor de um fruto.
Naquele preciso momento
o homem estava junto dela na Islândia."

"Nem o pormenor simbólico
de substituir um três por um dois
nem essa metáfora baldia
que convoca um lapso que morre e outro que surge
nem o cumprimento de um processo astronômico
aturdem e solapam
o altiplano desta noite
e nos obrigam a esperar
as doze irreparáveis badaladas.
A causa verdadeira
é a suspeita geral e embaçada
do enigma do Tempo;
é o assombro ante o milagre
de que a despeito de infinitos acasos,
de que a despeito de que somos
as gotas do rio de Heráclito,
perdure algo em nós:
imóvel."

"[...]O tempo ensinou-me algumas astúcias: evitar os sinônimos, que têm a desvantagem de sugerir diferenças imaginárias; evitar hispanismos, argentinismos, arcaísmos e neologismos; preferir as palavras habituais às palavras assombrosas; intercalar em um relato traços circunstanciais, exigidos agora pelo leitor; simular pequenas incertezas, já que, se a realidade é precisa, a memória não o é; narrar os fatos (isso aprendi em Kipling e nas sagas da Islândia) como se não os entendesse totalmente; lembrar que as normas anteriores não são obrigações e que o tempo se encarregará de aboli-las [...]".

Jorge Luis Borges

Escrito por Raissa Eckmann Peniche às 00h00
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02/12/2008


GOETHE

Johann Wolfgang von Goethe é considerado como a maior personalidade da literatura alemã, seu maior poeta, grande também como dramaturgo, romancista e ensaísta; e são notáveis suas obras autobiográficas, seus estudos de ciências naturais e suas conversações, fielmente notadas, com amigos.Pata toda essa obra polimorfa vale o que o próprio Goethe dizia das suas poesias: são "ocasionais", isto é, ligadas aos acontecimentos de sua vida e a experiências pessoais, de modo que não é possível separar as obras e a vida.De família burguesa, culta e abastada, Goethe recebeu educação enciclopédica. Em 1765 matriculou-se na Universidade de Leipzig para estudar direito. Conheceu literatos e artistas, envolveu-se em aventuras amorosas e escreveu poesias anacreônticas, à moda da época.
Interrompidos os estudos por grave doença, matriculou-se em 1770 na Universidade de Strasbourg. Conheceu Herder, o grande crítico pré-romântico, que o iniciou na leitura de Shakespeare e lhe sugeriu passeios pelos campos da Alsácia, para colecionar canções populares.

Amores e escritos

A catedral gótica de Strasbourg encheu-o de entusiasmo pela Idade Média alemã, quando surgiu a primeira idéia de escrever o Fausto. Em 1772 apaixonou-se por Charlotte Buff, noiva de um amigo íntimo, conflito que o abateu profundamente. Procurando alívio no estudo do passado, escreveu Götz von Berlichingen, uma tragédia shakespeariana, glorificando a época das lutas do tempo da Reforma. A peça obteve estrondoso sucesso.
A forte paixão por Charlotte ainda renderia outra obra: Os sofrimentos do jovem Werther. Embora influenciado por A nova Heloísa, de Rousseau, Goethe criou uma obra totalmente original, de permanente atualidade psicológica, cheia de sentimentalismo pré-romântico, mas elevada a alturas trágicas pelo desfecho, o suicídio de Werther.
O romance obteve sucesso imenso e foi traduzido para todas as línguas. O jovem autor transformou-se em personalidade de fama internacional e foi convidado a fixar residência em Weimar, nomeado ministro do pequeno ducado, e recebeu título nobreza.As relações de Goethe com Charlotte von Stein, sua nova amante, mulher altamente sofisticada, inspiraram-lhe nova série de poesias líricas. Mas não são eróticas. São grandes odes em versos livres, manifestações de um idealismo estético e moral. Ou, então, graves meditações em estilo hermético - e também pequenos poemas. São as mais belas poesias líricas da literatura alemã, mas dificilmente traduzíveis e por isso menos conhecidas no estrangeiro. Elas desmentem a tese de que Goethe teria sido mais ensaísta que poeta.

Romantismo e classicismo

Sentindo necessidade de sair do pré-romantismo, pela contemplação das obras de arte da Antiguidade clássica, Goethe viajou em 1786 para a Itália, onde ficou até 1788, principalmente em Roma. Seus estudos de arte o tornaram um classicista ortodoxo, à maneira de Winckelmann.
De volta a Weimar, Goethe publicou Fausto - um fragmento, terminando definitivamente a fase pré-romântica de sua vida. A tragédia Torquato Tasso, de 1790, resume suas experiências na corte: é a renúncia ao idealismo poético e a adoção de uma atitude realista ante as exigências da vida. Goethe torna-se realista.Assume, então, a direção do teatro de Weimar, criando um repertório em que predomina Shakespeare. Dedica-se cada vez mais às ciências naturais, sobretudo à botânica e à óptica.
A Revolução Francesa ameaçava destruir os fundamentos de sua existência aristocrática de esteta culto. Assistindo, em 1792, a primeira derrota dos exércitos monárquicos pelos revolucionários franceses, em Valmy, ele diagnostica com acerto a situação histórica, dizendo: "Daqui e hoje começa uma nova época da história universal".
Em 1794 começam as relações de amizade com Schiller. Lê as obras de Kant. Aprofunda, filosoficamente, o seu classicismo. É desse período o romance Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister, um romance de formação de um jovem poeta que se torna realista amadurecido.
Em 1805 escreve, em prosa clássica, Winckelmann e seu século, espécie de manifesto do classicismo. Em 1808, publica a primeira parte do Fausto. Nessa versão definitiva, a obra começa com as meditações metafísicas de Fausto, que formam um dos mais profundos poemas filosóficos da literatura universal.
Goethe manteve, inicialmente boa relação com os românticos, principalmente com com August Wilhelm Schlegel e com Friedrich Schlegel. Mas não estava de acordo nem com as tendências cristianizantes nem com a preferência pela Idade Média em detrimento do classicismo pagão. Separando-se dos românticos, acentua seu relativo realismo.

Novos amores

Parece que acreditava terminada sua carreira literária, quando a paixão pela linda Marianne von Willemer lhe inspirou O divã ocidental-oriental, volume de poesias eróticas e filosóficas, cheias de paixão violenta e de anticristianismo decidido. São os poemas mais belos que Goethe escreveu. A velhice de Goethe, que se havia transformado em ídolo literário do mundo, incondicionalmente idolatrado, pertence às tentativas de encontrar a continuação do Fausto e à elaboração do romance Anos de viagens de Wilhelm Meisters, publicado a partir de 1821, obra em que Goethe resume seu ideal de formação total da cultura do indivíduo, sonhando com uma utópica sociedade educativa para esse fim, a "província pedagógica". São os anos em que Goethe conversava diariamente, sobre todos os assuntos possíveis, com seu secretário, Johann Peter Eckermann (1791-1854), que publicou em 1837 suas notas sob o título de Conversações com Goethe, obra da mais alta sabedoria, revelando também o interesse do poeta pelas novas tendências literárias e seu ideal de uma comunidade literária de todas as nações.
A calma desses últimos anos foi perturbada pela repentina paixão erótica do homem de 70 anos pela jovem Ulrike von Levetzow. A resignação inevitável produziu o comovente poema Elegia de Marienbad. Goethe dedicou o resto de sua vida à elaboração da segunda parte do Fausto, que foi concluída em 1830, mas publicada só depois da morte do poeta.

 

Principais obras de Goethe

- Götz von Berlichingen - 1773 
- Prometheus - 1774 
- Os Sofrimentos do Jovem Werther - 1774 
- Egmont - 1775 
- Ifigênia em Taúrides - 1779 
- Torquato Tasso - 1780 
- Reineke Raposo - 1794 
- Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller) - 1796 
- Fausto - 1806 
- Hermann e Dorothea - 1798 
- Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister - 1807 
- Faust II - 1833

 

"Quem tem bastante no seu interior, pouco precisa de fora"

 

"Não há arte patriótica nem ciência patriótica. As duas, tal como tudo o que é bom e elevado, pertencem ao mundo inteiro e não podem progredir a não ser pela livre ação recíproca de todos os contemporâneos e tendo sempre em contra aquilo que nos resta e aquilo que conhecemos do passado."

 

"Nada é mais repugnante do que a maioria, pois ela compõe-se de uns poucos antecessores enérgicos; velhacos que se acomodam; de fracos, que se assimilam, e da massa que vai atrás de rastros, sem nem de longe saber o que quer."

 

"Falar é uma necessidade, escutar é uma arte."

 

"Não existe meio mais seguro para fugir do mundo do que a arte, e não há forma mais segura de se unir a ele do que a arte."

 

"Gosto daquele que sonha o impossível."

 

"Você tem subestimado o diabo. Ainda não posso persuadir-me de que um sujeito todo enchapelado tenha de ser alguma coisa!"

(Goethe)

 


http://sab.org.br/goethe/cient.htm

Escrito por Raissa Eckmann Peniche às 20h20
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FORTUNY

Mariano Fortuny e Marsal, de nome completo Mariano José Maria Bernardo Fortuny e Marsal (11 de junho de 1838, Reus, Cataluña - 21 de novembro de 1874, Roma),um dos pintores espanhóis mais importantes do século XIX.Suas obras recusam as histórias grandilocuentes e opta por temas sem transcendência, tratados desde certa perspectiva humorística.
Órfão desde muito menino, seu avô foi seu tutor e seu melhor valedor em seus primeiros anos e em sua juventude temporã, favorecendo sua formação artística com o pintor reusense Domènec Soberano. Também trabalhou com o platero e orfebre miniaturista reusense Antoni Bassa, quem influirá na minuciosidad que caracterizará no futuro sua pintura. Em 1852 se transladou a Barcelona em companhia de seu avô. Ali entrou a trabalhar no ateliê do escultor Domingo Talarn, quem, satisfeito com os avanços de seu jovem aluno, geriu-lhe uma pequena pensão da Obra Pía e a matrícula gratuita na Escola de Belas artes da Llotja, onde receberá pela primeira vez formação oficial. Seus maestros na Escola serão Pablo Milà e Fontanals, Luis Rigalt e Claudio Lorenzale, alguns muito influídos pelo chamado «Purismo nazareno.Em 1858 se transladou pela primeira vez a Roma com uma pensão da Diputación de Barcelona, onde entablará amizade com outros artistas espanhóis na cidade como Eduardo Roseiras ou Dióscoro da Povoa. Em 1860 estourou a guerra de Espanha contra Marrocos, e a Diputación de Barcelona encarregou a Fortuny que viajasse a este país com o ânimo de converter-se em cronista gráfico da contenda em companhia de Pedro Antonio de Alarcón. Ali se integraria como pintor no regimento do general Juan Prim, também originário de Reus. África vai supor uma descoberta para Fortuny, deslumbrado pela luz norteafricana e alucinado pelas planicies abertas, as luzes e os habitantes de Marrocos, chegando inclusive a aprender noções de árabe para integrar-se melhor no contexto. Se liberará desde este momento de convenções e academicismos, sentindo-se atraído intensamente pelos temas orientais. Como conseqüência essa estadia, Fortuny pintou algumas das obras mais significativas de sua produção, como A batalha de Tetuán (Museu Nacional d'Art de Cataluña, Barcelona).
Depois de seu regresso a Europa voltou A Roma. Contraiu casal com Cecilia de Madrazo, filha do pintor Federico de Madrazo e irmã do também pintor Raimundo de Madrazo, com quem Mariano Fortuny chegaria a estabelecer uma íntima amizade.
Pouco depois pintou um de seus quadros mais famosos: A vicariato (Museu Nacional d'Art de Cataluña, Barcelona), inspirado pretensamente na vicariato de sua paróquia em Madri, mas que muitos identificam como a vicariato da prioral de Sant Pere de Reus. Théophile Gautier o alabou extraordinariamente, o que contribuiu a incrementar sua fama. O marchante Goupil comprou o quadro por 70.000 francos e não o quis expor por medo a estragá-lo, até que o revendeu por 250.000 francos.
Para 1870 se transladou a Paris, onde contemplou as obras do Museu do Louvre, e do Museu de Luxemburgo, interessando-se especialmente por artistas como Horace Vernet, Eugène Fromentin, Alexandre Decamps e, muito especialmente, Eugène Delacroix.
Em 1868 os Fortuny se instalam em Granada, onde pintará diversas obras e para onde atrairá a alguns de seus amigos de Paris, como Martín Rico, Jules Worms ou o bilbaíno Eduardo Zamacois (quem, finalmente, morreria em Madri antes de chegar).
Viajou brevemente a Londres, e depois a Nápoles e à pequena localidade de Portici, no sul de Itália. Finalmente o 9 de novembro de 1874 voltou A Roma, onde morreu o 21 de novembro.
Em abril de 1875, os quadros que ainda se encontravam em seu estudo e os diferentes objetos que que Fortuny tinha reunido em sua coleção privada foram leiloados no Hotel Drouot de Paris, atingindo já então preços desorbitados. Apesar de sua morte aos 36 anos, seu estilo e sua obra lhe definem como um autêntico gênio que marcou indelevelmente a toda uma geração de pintores europeus, e que pôde revolucionar a pintura espanhola de ter seguido vivo, tal como se demonstra no estilo de suas últimas obras como Nu na Praia de Portici ou Os filhos do pintor num salão japonês (ambas fazes no Museu do Prado.
Seu coração foi enterrado em Reus, sua localidade natal, na prioral de Sant Pere. Em Reus, assim mesmo, deu-se seu nome ao teatro principal da cidade (o Teatro Fortuny, ainda existente), uma vaga (a Vaga do Pintor Fortuny, mais conhecida como Vaga do Condesito, personagem protagonista de uma das mais populares aguarelas do maestro) e mais tarde a uma avenida.

 

 

 

Escrito por Raissa Eckmann Peniche às 20h15
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28/11/2008


"...porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos,

os que são loucos por viver, loucos por falar,

loucos por serem salvos,

que querem tudo ao mesmo tempo agora,

aqueles que nunca bocejam (...)

mas que queimam, queimam, queimam c

omo fabulosos fogos de artifício explodindo (...)”

Jack Kerouac

Escrito por Raissa Eckmann Peniche às 02h09
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POR RUBENS CORRÊA

Caminho labiríntico que é o mundo da interpretação.

É uma tarefa que exige de mim sensibilidade e coragem; acho uma grande responsabilidade falar aos jovens, e é com muita emoção e prazer que passo adiante as humildes sementes do meu trabalho artístico, com a esperança de que alguma utilidade possa ser encontrada nelas e que de alguma maneira elas possam lhes tornar a caminhada menos solitária e mais solidária, na medida em que esta receita muito pessoal provoque dúvidas e reconsiderações, ou toque o sagrado dentro de cada um de vocês, ou reacenda aquela esperança cega que Prometeu garantiu ser a conquista mais urgente para a sobrevivência do homem neste planeta.
O grande poeta e dramaturgo alemão Büchner escreveu numa cena de sua peça Woyseck:Cada ser humano é um abismo e a gente tem vertigens quando se debruça sobre um deles.Acho que nós atores somos duplamente esse abismo-espelho: como seres humanos e como artistas.Nossa missão é provocar vertigem e o revisionamento do abismo dentro de cada espectador, para que depois de cada mergulho em nossos personagens-propostas essas pessoas pensem, se emocionem, compreendam e amem com nova e maior intensidade.

Eu, Rubens Corrêa, ator e artista de teatro, vinte e oito anos de profissão, e séculos e mais séculos de um longo período não sei onde, ofereço a vocês com apaixonada humildade o meu aprendizado nesta caminhada em cima das brasas sem se queimar que é a condição necessária para poder representar e viver com algum significado neste nosso bizarro país sul-americano.(...).

O CÁLICE

Representar para mim é a possibilidade que me foi dada de me comunicar com o meu semelhante através de uma troca de idéias, imagens, palavras, gestos e emoções.

Um divertido, fascinante, e muitas vezes cruel jogo que mistura ficção e realidade, consciente e inconsciente, sagrado e profano, amor e ódio, vida e morte. Uma Paixão.
Através dos anos venho elaborando em cima das tábuas o meu trabalho, tentando sempre o difícil equilíbrio entre as conquistas técnicas e a simplicidade da execução.Aqueles instantes, todas as noites, em que represento um papel, são sempre os melhores momentos do meu dia.
Isso quer dizer que levo para o palco meus sentimentos, minha idéia, minhas alegrias, meus abismos, meu horror e minha luz.
Diariamente filtro essas emoções através das necessidades de cada personagem, e recebo de volta para mim mesmo uma nova compreensão de meus problemas - e acrescento ao personagem um novo enriquecimento conseguido à quente, quer dizer, arrancado de dentro de mim mesmo.
Com o correr dos anos fui aprendendo a me observar como artista e ser humano, e fui tentando aproveitar em meus desenhos interpretativos a linguagem interior de minha vivência pessoal, para conseguir assim essa difícil união entre arte e vida, que foi sempre a minha grande aspiração.
Sempre acreditei que cada ator traz consigo um material fantástico, inimitável e único, muito difícil de ser conservado e desenvolvido nesta nossa era brutalizada e massificada.
É um cálice de cristal interior, que deve ser preservado e defendido através de muitos terremotos, muita contrariedade, muita decepção e sensação de abandono, mas com momentos também de enorme luminosidade que quando acontecem recompensam o artista e engrandecem o ser humano.
Cada ator é único e inimitável se ele mergulha com honestidade em si mesmo, e retrata o seu semelhante com generosidade, verdade e paixão.
Somos feitos da essência com que os sonhos são feitos escreveu Shakespeare, e essa é a melhor definição que conheço sobre o mistério da representação.

O CAVALO

Cada ator tem obrigação de zelar e desenvolver o seu instrumental, sua voz, seu corpo: seu cavalo.
Devemos transformar nosso corpo num grande arquivo de imagens com possibilidades de serem utilizadas em nossos futuros personagens; nossa voz deve poder miar, rugir, gemer, uivar, nossas mãos podem ser galhos de árvores, garras de feras, folhas secas ao vento nossos pés, colunas de um templo, patas de animais.
Nossos olhos devem poder reproduzir o enigma do olhar da esfinge, e a clareza cristalina de um poema de Brecht.
E mais, devemos nos preparar para poder receber com artística mediunidade a alma do mundo, as grandes interrogações do nosso tempo, a voracidade deste universo em constante transformação.
Devemos ser suficientemente fortes para poder reproduzir simultaneamente a maravilha e o horror do ser humano, a criatividade e a autodestrutividade de nós todos, homens, através desta difícil caminhada da vida.
O nosso cavalo deve então se preparar para poder assumir todas estas formas, e por isso ele tem de ser constantemente reabastecido e renovado.
O cavalo é também o estimulador de nossa energia, o conservador de nosso entusiasmo e de nossa fé; quando as crises vierem (e não tenham dúvida de que elas virão), nada melhor do que trabalhar na fortificação do cavalo, porque no mínimo estaremos crescendo durante a crise, estaremos trabalhando e temperando novas energias, adquirindo novas técnicas, novos conhecimentos.
Podem ter certeza de que um bom cavalo torna o ator indestrutível.

O FOGO

O fogo através do tempo sempre foi o símbolo vivo da fé, do entusiasmo e da rebeldia; mantê-lo aceso dentro de nós é também um trabalho para a vida inteira.O fogo nasce de um estado de curiosidade natural e instintivo e pode ser desenvolvido através da conquista progressiva de uma cultura geral, de uma observação apaixonada da história do homem, da história de todas as artes, da emocionante história do teatro e um profundo sentimento de observação do ser humano aqueles para quem realizaremos nossas mágicas, o nosso público.
Esse fogo interno, uma espécie de grande rol central de energia e fé, é uma grande defesa contra a acomodação, e me parece ser a grande mola propulsora da criatividade; devemos estar sempre atentos aos seus chamados, e é preciso não deixar nunca, custe o que custar, esse fogo esmorecer, porque, caso isso aconteça, seremos os artífices de uma arte morta, sonâmbula, inútil, feia e resignada.

O MENINO

A recuperação da liberdade da infância através da vida adulta foi sempre uma das minhas metas; a criança é uma fonte incrível de informação artística - e a criança que nós fomos recuperada através do nosso lado lúdico tão atrofiado pelo correr dos anos, pode nos servir de guia, mas um guia muito especial, que caminha alegre e despreocupado, que sabe descobrir o mágico dentro do cotidiano, intuitivamente Um grande exemplo da presença do menino dentro de um artista está na figura e na obra do
pintor Pablo Picasso.
Eu não procuro, eu acho afirmava o grande pintor.
E essa fala denuncía o menino que Picasso levava dentro de si, que pintava cerâmica usando como base para o desenho a espinha do peixe que tinha comido no almoço, ou fazia fantástica escultura aproveitando uma roda velha e quebrada de uma bicicleta encontrada na estrada durante seu passeio matinal.
O menino traz alegria e descompromisso racional para o trabalho artístico.
No Passeio Público do Rio de Janeiro tem um menino-anjo esculpido num bebedouro (se não me engano de Mestre Valentim) com a seguinte legenda: Sou útil, ainda brincando.
Essa é a lei e a sabedoria dos meninos.

CONCLUSÃO

Acho que preservando o cálice, domando o cavalo, estimulando o fogo e soltando o menino, o artista está preparado para viver e criar uma vida bela e uma obra útil para a coletividade.

Escrito por Raissa Eckmann Peniche às 02h01
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27/11/2008


ARTAUD

"A GENTE SOMOS..." Empesteados

Para Artaud, o corpo é algo de mágico e de transcendente: a eternidade é visceral e corpórea, a morte foi inventada e o teatro é a revolução do corpo.
No seu texto "O teatro e a peste", Artaud estabelece a relação entre estes dois elementos:

"A peste apodera-se de imagens que dormem, de uma desordem latente, e de repente empurra-as até aos gestos mais extremos; e o teatro, também ele, se apodera de gestos e os empurra até ficarem fora de si: tal como a peste, refaz a cadeia entre o que é e o que não é, entre a virtualidade do possível e o que existe na natureza materializada. (...)

Como a peste, o teatro é uma crise que se desenlaça com a morte ou com a cura. E a peste é um mal superior porque é uma crise completa, e depois dela nada mais resta a não ser a morte ou uma extrema purificação. De igual forma, o teatro é um mal porque equilíbrio supremo, não adquirível sem destruição. Convida o espírito a um delírio que lhe exalta as energias; (...) levando os homens a verem-se como são, faz cair a máscara, põe à mostra a mentira, a frouxidão, a baixeza e a hipocrisia(a precariedade); sacode a inércia asfixiante da matéria, que chega às mais claras certezas dos sentidos; e revelando a coletividades o seu poder sombrio, a sua força oculta, convida-as a assumir perante o destino uma atitude heróica e superior que, sem isto, nunca teriam tido."

 
Artaud
 
Viva a Peste!
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Antonin Artaud (1896-1948) desde cedo apresentou problemas de saúde e neurológicos. Aos 24 anos começou a tomar tintura de ópio para aliviar dores de cabeça. Tornou-se dependente. Foi internado diversas vezes. Sofreu vários tratamentos para loucura(!). Autor de teatro e cinema, teórico do teatro e autor de peças teatrais, poemas, ensaios, cartas (seu meio de expressão preferido).

Artaud questionou e subverteu a noção de LOUCURA em seus textos, como em "Van Gogh: O Suicidado Pela Sociedade".

Artaud, o existencialista do desespero. Poetas e críticos afirmam que Artaud ampliou a visão de Rimbaud, do poeta vidente. Um artista francês chegou a afirmar que ARTAUD era a reencarnação de RIMBAUD e seu sucessor espiritual. 

Se nos anos 30 o teatro para Artaud é “o lugar onde se refaz a vida”, depois de Rodez ele é essencialmente o lugar onde se refaz o corpo. O “corpo sem órgãos” é o nome deste corpo refeito e reorganizado que uma vez libertado de seus automatismos se abre para “dançar ao inverso”.

“A questão que se coloca é de permitir que o teatro reencontre sua verdadeira linguagem, linguagem espacial, linguagem de gestos, de atitudes, de expressões e de mímica, linguagem de gritos e onomatopéias, linguagem sonora, onde todos os elementos objetivos se transformam em sinais, sejam visuais, sejam sonoros, mas que terão tanta importância intelectual e de significados sensíveis quanto a linguagem de palavras

Artaud foi encontrado morto no quarto de um sanatório onde estava internado. Versões para sua morte: câncer no reto (a oficial), intoxicação com heroína e morfina ou suicídio.

Em O Teatro e seu duplo, obra na qual apresenta o conjunto de idéias que constituíram o teatro da crueldade, Antonin Artaud defende uma linguagem que pudesse exprimir objetivamente verdades secretas. Uma linguagem mais concreta que a utilizada para falar da esfera psicológica: mudar a finalidade da palavra no teatro é servir-se dela em um sentido concreto e espacial, combinando-a com tudo o que o teatro contém de especial e de significação em um domínio concreto; é manipulá-la como objeto sólido, capaz de abalar as coisas inicialmente no ar, e em seguida em um domínio mais misterioso e mais secreto.Por isso, o teatro da crueldade é um ritual, valorizando o gestual e o objeto, trocando o lugar de palco e platéia. Em outras de suas obras, como Heliogábalo, O anarquista coroado e Viagem ao país dos Taraumaras, criou uma recíproca desse teatro, uma espécie de semiologia onde as coisas têm significado e formam discursos. A leitura de Viagem ao país dos Taraumaras, e do que escreveu depois sobre o ritual do peiote, mostra que esse rito do sol negro foi, para ele, a mais autêntica realização do teatro da crueldade.Em uma das Cartas de Rodez, quando esteve internado nessa instituição psiquiátrica em 1945, Artaud responde a Henry Parisot, que lhe havia mandado o Jabberwocky (Jaguadarte) de Lewis Carroll (obra na qual é inventada a palavra-baú) perguntando-lhe se não queria traduzi-la. Diz que não, que Lewis Carroll não tem uma visão fecal do ser, e o acusa de haver roubado um texto seu: tendo escrito um texto como Letura d'Eprahi Talli Tetr Fendi Photia O Fotre Indi, não posso tolerar que a sociedade atual (…) só me deixe traduzir um outro feito a sua imitação. (…) Aqui estão alguns experimentos de linguagem aos quais a linguagem desse livro antigo devia assemelhar-se. Mas que só podem ser lidos se escandidos em um ritmo que o próprio leitor deverá achar para entender e para pensar:

ratara ratara ratara
atara tatara rana
otara otara katara
otara retara kana
ortura ortura konara
kokona kokona koma
kurbura kurbura kurbura
kurbata kurbata keyna
pesti anti pestantum putara
pest anti pestantum putra

Há outros exemplos dessa linguagem em Artaud, em sua fase pós-internamento. Mas ele não a inventou: o uso de fonemas não-semantizados é arcaico. Octavio Paz, no ensaio Leitura e Contemplação (publicado na coletânea Convergências), trata das glossolálias, o "falar línguas", expressão de estados alterados de consciência por gnósticos e outras doutrinas místicas. Analisa o modo como reaparecem em autores modernos – Huidobro, Khlebnikov, Fargue, Michaux, Hugo Ball e Artaud: na história da poesia moderna, reaparece a mesma obsessão dos gnósticos e dos cristãos primitivos, dos montanistas e dos xamãs da Ásia e da América: a busca de uma linguagem anterior a todas as linguagens, e que restabeleça a unidade do espírito. Embora intraduzível para tal ou qual significação, essa linguagem não carece de sentido. Mais exatamente: aquilo que enuncia não está antes, mas depois da significação. Não é um balbuciar pré-significativo: é uma realidade ao mesmo tempo física e espiritual, audível e mental, que transpôs os domínios do significado e os incendiou.
O paralelo entre a escrita de Artaud e idéias gnósticas e herméticas também é apontado por Susan Sontag, comentando as passagens, em Artaud, nas quais as palavras são tratadas primariamente como material (som): elas têm um valor mágico. A atenção ao som e forma das palavras, como distinta de seu significado, é um elemento do ensinamento cabalístico do Zohar, que Artaud estudou na década de trinta. Isso é evidente em textos como Para acabar com o julgamento de Deus, onde afirma que toda verdadeira linguagem é ininteligível, e exemplifica com glossolálias: potam am cram/ katanam anankreta/ karaban kreta/ tanamam anangteta/ konaman kreta/ e pustulam orentam/ taumer dauldi faldisti. Para acabar… é um catecismo de heresias. Afirma que onde cheira a merda, cheira a ser, perguntando, em uma suprema blasfêmia: É deus um ser?/ Se o for, é merda. São blasfêmias ditas a partir de um ponto/ em que me vejo forçado/ a dizer não,/ NÃO/ à negação. A liberdade está no avesso: Então poderão ensiná-lo a dançar às avessas/ como no delírio dos bailes populares/ e esse avesso será/ seu verdadeiro lugar.Semelhante escrita do avesso é uma sobrevivência de idéias gnósticas, nascidas nas areias da Palestina, inventadas por um concorrente do Cristo, Simão o Mago, para depois se disseminarem em remotos séculos I e II, por seitas que buscavam formar religiões secretas, principalmente no Egito, convivendo com o neoplatonismo e o hermetismo. Os crentes na criação do mundo por uma divindade decaída, o Demiurgo, e na salvação humana pela obtenção de um conhecimento resultando, não da adesão, mas da luta contra Deus. Para alguns, pela adoção de um código moral às avessas. Desapareceram diante da organização teológica e política do cristianismo, perseguidos e combatidos como hereges, para reaparecer na Idade Média como bogomilos e, no século XIII, como cátaros da Provença, exterminados militarmente. A inversão da história do Jardim do Éden, na qual a serpente é portadora, não da perdição, porém da sabedoria, além de se manter em cultos demoníacos da Idade Média e da Renascença, aparece na criação literária como adesão ao avesso, fascinação romântica e pós-romântica pelo desafio, não apenas à ordem social, mas universal. A permanência da heresia como sombra da História é a expressão da revolta contra um mundo e uma sociedade onde tudo está errado, fora do lugar. Por isso, engendrado por um ente maligno, o Demiurgo. William Blake, que acreditava em um Deus ruim e opressor, em conflito com um Deus bom, é um escritor antecipado pela Gnose, mais que pelo paganismo. Assim como, a seu modo, Baudelaire, Nerval, Lautréamont, Jarry e Artaud.Cosmogonias invertidas, glossolálias e pensamento mágico também comparecem nos delírios, nos surtos psicóticos. Diferentes sociedades em diferentes épocas tiveram suas representações da loucura e lugares para o louco. É possível mostrar que no xamã, sacerdote tribal primitivo, os três lugares são o mesmo. Confundem-se também em William Blake, que conversava com profetas bíblicos. A loucura de Artaud consistiu em ele ter sido um personagem de si mesmo, identificando obra e vida. Inspirado em seus textos, praticou-os na vida real, como no famoso episódio, relatado por Anais Nin, da palestra (O Teatro e a peste, de O teatro e seu duplo), em que declarou que não iria falar da peste, porém mostrá-la, encarnando o empesteado, sofrendo, contorcendo-se até cair no chão, de forma tão chocante que esvaziou o auditório. Ou nas ocasiões em que afirmou que Paris era Roma antiga e ele, Artaud, era Heliogábalo.Identificar linguagem e realidade, querer que o símbolo se torne efetivo, ativo no plano da realidade, é pensamento mágico. E também pensamento poético, busca da anulação do tempo. A confusão entre criação, idéias típicas do sintoma e temas de uma tradição esotérica chega a nós pela corrente subterrânea da história; passa a ser um dos modos da tradição da ruptura, para utilizar a expressão criada por Octavio Paz (em Os filhos do barro). Em seus elogios e homenagens a Lautréamont, Nerval e Poe, Artaud se assume como representante dessa tradição. Reescreve uma história da literatura como história de escritores loucos, que culmina nele.É especialmente fascinante como Artaud, depois de viajar ao México para tomar peiote entre os Taraumara, de ter uma crise ao voltar e ser internado, produziu textos literariamente superiores, pela força, ritmo e riqueza de imagens. Onde se pode ver como antagônicos, em muitos escritores, um componente psicótico, destrutivo, e um componente criador, em Artaud ambos interagiam; um alimentou o outro. Sua obra culmina, em 1947, com Van Gogh, o suicidado pela sociedade, esplêndido poema em prosa onde reitera que louco é o homem que a sociedade não quer ouvir, e que é impedido de enunciar certas verdades intoleráveis. Afirma que um dos meios de a sociedade burguesa marginalizar artistas videntes é através de bruxarias. Insiste em que seu internamento é obra de uma conjuração, pois, se o deixassem solto, mudaria o mundo. Caracteriza Van Gogh como vítima solidária do mesmo enfeitiçamento.Assumindo a ótica de Artaud, distinguir entre categorias como normalidade e loucura, ou entre arte, sintoma e delírio, é uma falsa questão. É inevitável, ao discuti-lo, adotar a perspectiva e o tipo de epistemologia defendida por Michel Foucault na parte final de As Palavras e as Coisas, e, a meu ver, de modo mais consistente pelo surrealismo. Consiste em pensar o delírio, tanto quanto o sonho e a criação poética, como meios de conhecimento. Assim como a linguagem científica abre campos de conhecimento, a linguagem não-instrumental, não-discursiva, abre outros campos de experiência do real. Entender o inconsciente como consciência não-discursiva ajuda a esclarecer a modernidade de Hölderlin, Nerval, Lautréamont, Corbière, Germain Nouveau, Jarry e Artaud. Permitindo a intervenção do inconsciente, rompem com o discursivo e com a sociedade: rompem com o discurso da sociedade. Fazem arte revolucionária, pela radicalidade da rebelião individual, e por sua crítica à realidade: por isso falo em tomá-la como meio de conhecimento, e não apenas como algo a ser interpretado, como objeto do paradigma clínico ou de uma teoria literária. A inserção consciente de Artaud na tradição da ruptura acentua o caráter universal de sua contribuição, por mais que esta se tenha manifestado de modo particular, irredutível, que não permite uma escola ou doutrina de seguidores, apesar da sua influência em tantos campos da modernidade: teatro, poesia, contracultura, antipsiquiatria. É universal por expressar contradições fundamentais, entre o sujeito e o mundo que lhe é exterior, o imaginário e o real, o absoluto e o contingente, o poético e o prosaico.

Escrito por Raissa Eckmann Peniche às 02h53
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Schiller

Johann Christoph Friedrich von Schiller, importante poeta, dramaturgo e filósofo alemão, interessado sobretudo na Estética, faleceu jovem, mas deixou poesias e peças teatrais e escritos que marcaram a literatura e a filosofia alemãs. Schiller nasceu em Marbach am die Neckar em 10 de novembro de 1759. Seu pai, Johann Kaspar (1723-1796), era um cirurgião militar que serviu em Marbach onde casou com Elisabeth Dorothea Kodweis (1732-1702) filha de um taberneiro. Como militar, o pai mudou-se várias vezes com a família, mas os períodos passados em Lorch e Ludwigsburg, permitiram que Schiller recebesse educação regular. Em 1773 o duque Karl Eugen de Wurttemberg, exigiu que o jovem fosse matriculado na escola militar do ducado, perto de Ludwigsburg onde, apesar de ser desejo da família que ele estudasse teologia, foi obrigado a estudar Leis. Com a mudança da escola para Stuttgart em 1775, ele teve a chance de mudar para o estudo da Medicina . A brutalidade do regime militar a que estava sujeito e a influência da leitura de Rousseau e dos poetas do movimento Sturm und Drang,, fizeram crescer sua revolta contra a tirania dos governos, revolta que deixou extravasar em sua primeira obra, a peça Die Räuber ("Os assaltantes"), que escreveu de 1777 a 1778 enquanto estudante. É o drama entre dois irmãos em que um é deserdado devido a intrigas feitas pelo outro, e se torna um assaltante até se convencer de que o crime nunca haveria de reparar sua perda. Formado em 1780 Schiller foi designado para servir no regimento em Stuttgart. A peça Die Räuber, publicada às suas expensas, tornou-se um sucesso, e é considerada um dos mais importantes dramas do teatro germânico no século XVIII.Por ausentar-se de Stuttgart para ver a primeira representação de sua peça em Mannheim, no reino vizinho do Palatinado, ficou na prisão por quinze dias por ordem do duque, e foi proibido de escrever para o teatro. Desertou e depois de passar por Mannheim, procurou refúgio em Bauerbach, na Turingia, em casa de um ex-colega da universidade. La completou o drama Luise Millerin e escreveu outras peças, todas elas, - inclusive a primeira Die Röuber -, levadas ao palco no Teatro Nacional de Mannheim a partir de 1781.Seus dramas escritos na juventude, Die Räuber, de 1781, e Kabale und Liebe ("Amor e intriga") de 1784, foram escritos dentro do espírito do Sturm und Drang, mas com uma crítica bastante acentuada do individualismo idealista. Em abril de 1785 deixou Mannheim, para ir a Leipzig, Dresden e Loschwitz no Elba, atendendo a convite de alguns amigos que havia feito por correspondência. Neste último local completou o seu Don Carlos, Infant von Spanien, em que revela o conflito entre o Rei Filipe II da Espanha e seu filho do primeiro casamento, Dom Carlos, que ama sua madrasta, a segunda mulher de seu pai. Aproveitando essa trama, Schiller, que havia sofrido com a tirania, expressa idéias de liberdade intelectual e política, como um discípulo de Rousseau. Vivendo às expensas do novo amigo Christian Körner, escreveu Der Verbrecher aus Infamie ou Der Verbrecher ens verlorener Ehre, publicado em 1786. Neste período de adversidade Schiller sofreu tanto pela permanente pobreza como por sua paixão por uma mulher casada, Charlotte von Kalb. Já uma personalidade famosa, visitou Weimar em 1787. Lá tornou-se amigo de Herder e publicou, no jornal Der teutsche Merkur ("Mercúrio Alemão") do também poeta Christoph Martin (1733-1813), o seu Die Küstler ("O Artrista") um longo pema sobre o papel das artes como grande força civilizadora.Nessas obras, como em Don Carlos, de 1787, o leitor ou espectador é constantemente confrontado por um lado com a imagem de uma sociedade que sufoca toda iniciativa individual, e por outro com as dificuldades que enfrenta o indivíduo para manter a pureza de seus motivos e de seus objetivos.

Amizade com Goethe. Em Weimar tornou-se amigo de Goethe, que fora atraído por seus poemas, Die Goiter Griechenlands, de 1788, e Die Kunstler, de 1789. Goethe prontamente atendeu ao convite de Schiller para colaborar em seu jornal Die Horen. A pesquisa histórica que fez na preparação do Dom Carlos levou-o a interessar-se pela História e publicar, em 1788, o primeiro volume de Geschichte des Abfails des vereinigten Niederlande von der spanischen Regierung, o que lhe valeu o lugar de professor na Universidade de Jena, obtido em 1789 por influência de Goethe. Escreveu em seguida Geschichte des dreisssgjahrigen Krieges ("História da Guerra dos Trintra Anos"). Em 1790 Schiller casou-se com Charlotte Lengefeld, mulher culta e de boa família, com quem teve dois filhos e duas filhas. Em 1792 Schiller veio a adoecer. No ano seguinte, recebeu de dois beneméritos nobres holandeses recursos para se tratar e se manter, e enquanto tentava recuperar a saúde entregou-se a leituras de filosofia, despertando-lhe grande interesse o livro de Kant, Kritik der Urteilskraft ("Crítica do Juízo") que acabava de ser publicado. De 1793 a 1801 escreveu vários ensaios tentando definir a atividade estética, sua função social e suas relações com a moral. Com fundamento no pensamento de Kant, Schiller desenvolveu uma teoria da "educação estética", a ser possível por efeito de um equilíbrio entre a dominação da inteligência e a dominação dos sentidos. De acordo com ele, a tragédia materializa a vitória moral do homem sobre seus instintos e seu egoísmo. Essas idéias aparecem não apenas nos ensaios que escreveu, mas também em seus poemas, como o Das Ideal und das Leben ("O ideal e a vida"), de 1795, e em certa medida também nos dramas: Wallenstein, de 1798-1801, Maria Stuart, de 1800; Die Jungfrau von Orleans ("A jovem de Orleans"), de 1801, e Wilhelm Tell (Guilherme Tel"), de 1804, este o último drama que chegou a completar, e no qual exalta a luta do povo suíço para livrar-se da tirania.Ocorreu em 1796 o falecimento de seu pai. Schiller faleceu em Weimar em maio de 1805.

FILOSOFIA

A preocupação central de Schiller é precisamente a relação entre razão e sensibilidade, entre o dever que nos é indicado pela razão, e as nossas inclinações naturais, e o seu principal pensamento filosófico parece ser com respeito ao papel da Estética como força civilizadora. Ele parte do pensamento de Rousseau, de que o povo quer o bem, mas é incapaz de reconhecê-lo sem uma educação e que a mestra para essa educação é a natureza, ou seja, as nossas próprias inclinações. Parte também da posição de Kant, que é contrária à de Rousseau, porque Kant diz que a razão é que aponta o dever e indica o que é bom e correto. Com respeito a Rousseau, Schiller considera que a natureza (nossas inclinações) não é mestra confiável, pois suas lições muitas vezes chegam perto de aniquilar o homem. Com respeito a Kant, acha que seguir exclusivamente a razão como quer Kant, simplesmente levaria a uma forma de opressão política. De um lado o retorno à selvageria, de outro o cansaço e o desestímulo Portanto, nem as inclinações nem a razão são capazes, isoladamente, de tirar o homem da brutalidade para a civilização. A solução, para Schiller, é que os dois elementos, nossas inclinações e nossa razão, atuem juntos. Não podem os sentimentos dominarem a razão nem pode a razão destruir os sentimentos. E a natural convergência desses dois elementos está na Estética, na apreciação do belo, que exige tanto de nossos sentimentos quanto de nossa razão na sua apreciação. A razão precisa do sentimento, a fim de que a moral racional seja desejada, e o comportamento moral seja valorizado.A sensibilidade tem que colocar seu peso total por trás da razão. Somente quando a razão tem o peso total da sensibilidade atrás de si é que é possível para nós saltar fora do estado da natureza. Devido à presença de inclinações, qualquer que sejam, deixamos de ser seres morais confiáveis.- Pode em alguns casos funcionar, mas em outros as chances são pesadamente contra a razão vencer a competição, o que é parte do argumento de Schiller. - dever e inclinação precisam fluir na mesma direção. - Assim, para Schiller, o carater inteiro será vigoroso, porque será um carater no qual a razão e a inclinação não são mais antagônicos, e no qual a razão terá a plena força do impulso atrás de si. Energia de carater, ele dirá, é a principal fonte de tudo que é grande e excelente no homem.Assim Schiller via a sociedade de seu tempo: os vícios da natureza misturados com a racionalização para justificar os piores aspectos do egoísmo social e político - Essa divisão no Estado reflete a mesma divisão que existe em cada indivíduo. Por isso o Estado nada pode fazer para reunificar o indivíduo, de modo que o sentimento encorage a moral. Ao contrário "longe de ser capaz de lançar os fundamentos para essa humanidade melhor, o próprio Estado teria que se fundar nela" .A solução tem que ser alguma coisa capaz de unir, no homem, essas duas partes antagônicas, e Schiller se volta para as Artes. Schiller apela para o poder energizante da beleza - O homem dominado exclusivamente pelo sentimento será libertado através da disciplina - O homem totalmente dominado pela disciplina espiritual será libertado através de certa medida de materialidade (sensualidade) - é um estado no qual a pessoa ganha um sentido de sua própria totalidade. O argumento é que na experiência estética, de acordo com Schiller, nos tornamos conscientes de aspectos de nós mesmos que revelam uma inteireza (ou plenitude) que de outro modo poderíamos não saber existente. Nós provavelmente compartilharemos o ceticismo geral a respeito de sua pretensão de que "é somente através da Beleza que o homem faz seu caminho para a liberdade.

Texto de Schiller "OS BANDIDOS",é montado no Teatro Oficina,Direção de José Celso Martinez Corrêa

temporada: sexta às 21h
sábado e domingo às 18h. 

Nietzsche diz que se essa peça tivesse sido escrita antes da Invenção de Deus, ele Deus, nem precisaria ter aparecido. Schiller além de Freud q coloca a ênfase na sexualidade, ou Marx na economia, escolhe Arte como sua rocha viva. A Arte como dizia o Artaud, mais excitante q o crime, e na Arte, Schiller sublinha a BELEZA. Deusa do amor, seja a clássica beleza, a mostruosa, a divina, ou a luciferiana. A Beleza !Além de Musical, é a Primeira Novela das 8 do OficinaUzynaUzona. Um Folhetim que se passa nos dois hemisférios, Norte e Sul, em torno de uma Grande Corporação Vídeo Financeira. A Peça se passa em São Paulo, chamada de SamPã e numa Capital do Capital imaginária do Hemisfério Norte q poderia ser Berlim, Nova Yorque, etc…

O âmago de Os Bandidos, nova aventura do Oficina, é uma turbulenta relação familiar entre dois irmãos, Kosmos e Damian (em alusão a Cosme e Damião). Eles são filhos do dono de uma empresa multinacional, cáustica e ironicamente chamada de SS Pro-World Corporation - remetendo aos SS de Hitler. Kosmos (Aury Porto) representa uma inteligência diabólica, que visa assumir o comando da empresa por meio de complôs e tenebrosas transações. Já seu irmão Damião (Marcelo Drummond) é uma espécie de Ovelha Negra: um Robin Hood pós-moderno, que chefia uma gangue de foras-da-lei, aposta na politização do banditismo e tem sua cabeça posta à prêmio pelas autoridades. Uma deslumbrante mulher, Ariadne Brasília (Sylvia Prado), objeto de disputa entre os dois irmãos, apimenta o caldo dessa fraternidade condenada à rixa sangrenta.Como é comum, a adaptação é bastante livre e Zé Celso traz uma série de elementos anacrônicos e heterogêneos para este riquíssimo caldo artístico. Obviamente, o dramaturgo alemão não utilizou vocábulos tão indignos de um autor tão refinado como “merda”, “cuzão” e “boceta” – dos quais os atores lançam mão no palco. Schiller também não teve o inenarrável prazer de conhecer “figuras” como He-Man, Sílvio Santos, Che Guevara e o Diadorim de Guimarães Rosa, personagens que dão as caras por aqui sem vergonha.O autor certamente não imaginou tampouco que uma peça sua pudesse ter incorporados elementos multimídia e sonoplásticos dos mais diversos: projeção de vídeo no chão e nas paredes, vídeo-clipes simulando noticiários e propagandas, um diálogo irônico com o conceito de novela-das-oito e adaptações de clássicos da música erudita para o mundo do rap e do tecno. Tudo isso que faz o Oficina virar um legítimo “terreiro eletrônico” ou templo pós-moderno nesta “ópera de carnaval” que é “Os Bandidos” – onde Schiller é comido, digerido e vomitado de volta para o mundo num processo antropofágico e anárquico que Oswald de Andrade aprovaria com louvor.

 

 

A Bacante Vidente (Anna Gui)

 

Escrito por Raissa Eckmann Peniche às 01h05
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26/11/2008


EUGENIO BARBA

Sua família é originária de Gallipoli (província de Lecce). Forma-se na academia militar de Napoli em 1954. Neste mesmo ano se transfere para a Noruega para trabalhar como marinheiro. Se forma em literatura francesa em Oslo e história das religiões nórdicas.Em 1961 se muda para Varsóvia, Polônia, para estudar direção teatral na Escola Teatral do Estado, que abandona no ano seguinte para unir-se a Jerzy Grotowski, no Teatr 13 Rzedow de Opole. Barba acompanha Grotowski por três anos.Em 1963 viaja a Índia, onde tem seu primeiro encontro com o Kathakali. Seu primeiro livro Grotowski alla ricerca del Teatro Perduto - na procura do teatro perdido, foi publicado na Itália e na Hungria em 1965.Quando volta a Oslo, em 1964, tinha a intenção de tornar-se um diretor teatral profissional, mas, como era estrangeiro, não teve muito sucesso inicialmente. Assim decide iniciar um teatro particular, com jovens que não haviam sido admitidos na Escola Teatral do Estado de Oslo e cria o Odin Teatret em 1 de outubro de 1964.A primeira produção do Odin Teatret foi Ornitofilene, do autor norueguês Jens Bjørneboe, foi apresentada na Noruega, Suécia, Finlândia e Dinamarca. Depois da apresentação na Dinamarca o grupo foi convidado pela prefeitura de Holstebro, uma pequena cidade na costa noroeste, a criar um laboratório teatral. Ao Odin foi oferecida uma velha fábrica e uma pequena soma de dinheiro para que se estabelecesse autonomamente. Hostelbro se torna a sede do Odin Teatret.Eugênio Barba fundou e é diretor do Odin Teatret desde 1964, após participar durante 03 anos do Teatro das 13 filas, fundado por Grotowski em Opole (1960-1963) e de uma viagem à Índia, onde descobre o Teatro-dança Kathakali, ainda bem desconhecido no Ocidente.
Após esse período ele volta a Oslo e por ser estrangeiro (italiano) não consegue arrumar trabalho no teatro profissional. Com alguns dos aspirantes a atores reprovados na Escola Estadual de Teatro de Oslo, ele funda o Odin Teatret, em 1964.Barba e os atores trabalhavam durante o dia para garantir o seu sustento e treinavam durante as noites em locais temporários: uma sala da universidade, o hall do clube dos arquitetos e em um refúgio antiaéreo impregnado de umidade. Dos doze atores que começaram, restaram quatro. Um dos atores-fundadores do Odin, Torgeir Werthal, lembra este período: "Lembro-me deste período como um pesadelo físico. Quando comecei, eu era rígido e fraco. Demorei quase seis meses para aprender aqueles exercícios mais simples que a maioria de nossos estudantes aprendem agora em 15 dias". Else Marie Laukvik, também fundador do grupo, diz: "Havia momentos de dúvida. Algumas vezes era embaraçoso ver as reações daqueles que nos perguntavam o que fazíamos: teatro em um bunker? Só quatro? Rejeitados pela escola de teatro? Dirigidos por um italiano da Polônia? Sem cenário? E o público? Alguns achavam que éramos parasitas da sociedade, sem fazer nada útil ou, pior ainda, nada aceitável".O primeiro espetáculo do grupo aconteceu após um ano de trabalho: "Ornitofilene", do norueguês Jens Bjurneboe. A dificuldade em alugar um local para atuar e para encontrar pessoas interessadas em assistir ao espetáculo de um grupo que não é reconhecido, torna impossível a sobrevivência do mesmo. Das cinqüenta apresentações previstas de "Ornitofilene", somente dez foram realizadas.Neste momento crítico, o grupo recebe um convite para mudar-se para a cidade de Holstebro, na Dinamarca, em 1966, onde permanece até hoje.Em Holstebro, cria o Nordisk Teaterlaboratorium, que em 1971 é reconhecido pelo Ministério da Cultura dinamarquês como uma escola experimental de teatro, permitindo-lhe expandir suas atividades pedagógicas e de investigação. De uma pequena e desconhecida entidade, o Nordisk Teaterlaboratorium se transforma em uma das influências mais fortes no desenvolvimento do teatro contemporâneo.Em 1979, funda o ISTA, International School of Teatre Antropology, "um centro de intercâmbio de técnicas teatrais e investigações no campo da antropologia teatral - estudo do homem em situação de representação, com ênfase nas técnicas do ator. Reúne especialistas de teatro, sociólogos, antropólogos e mestres de várias tradições teatrais."
Para compreender o fazer teatral de Eugênio Barba é importante entender a sua visão não só de teatro, mas, principalmente, do ser humano que traz na sua essência, um elemento que ele julga essencial no artista: a rebeldia. É esta rebeldia que vai construir as bases do teatro de Barba, a começar pela própria origem do seu grupo: atores não aprovados na Escola Estadual de Teatro de Oslo.O valor do teatro não reside na sua função sociológica, difusa e indefinível" (...) "mas somente mediante uma renovação contínua de nossa atitude pessoal diante da vida se determinará um novo enfoque de nossa arte", diz Barba.
É o processo que transforma o artista, o modo como ele encara cotidianamente o seu trabalho. Para Barba, somente os jovens que não se contentam com soluções superficiais é que conseguem realizar essa experiência de transformação. Ele diz: "o nosso ofício é a possibilidade de mudar a nós mesmos e desse modo mudar a sociedade" (...) "não é preciso perguntar-se: o que significa o teatro para o povo? Esta é uma resposta demagógica e estéril. É preciso perguntar-se: o que significa o teatro para mim? A resposta transformada em ação será a revolução do teatro." Para Barba e muitos outros mestres de teatro, o teatro não é um fim em si mesmo, mas um meio de nos tornarmos seres humanos melhores. Só assim realizaremos revoluções profundas e duradouras.
 

Escrito por Raissa Peniche às 01h25
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TEATRO ANTROPOLÓGICO-EUGENIO BARBA

Encontrar uma anatomia especial para o ator, ou seja, o seu "corpo extra-cotidiano". É através da antropologia teatral - "o estudo do comportamento cênico pré-expressivo que se encontra na base dos diferentes gêneros, estilos e papéis e das tradições pessoais e coletivas", que Barba vai encontrar esse "novo corpo", onde a presença física e mental do ator modela-se segundo princípios diferentes dos da vida cotidiana. O corpo todo pensa/age com uma outra qualidade de energia e ter energia significa saber modelá-la: "um corpo-mente em liberdade afrontando as necessidades e os obstáculos predispostos, submetendo-se a uma disciplina que se transforma em descobrimento." A utilização extra-cotidiana do corpo-mente é aquilo que ele chama de "técnica". Uma ruptura dos automatismos do cotidiano. Princípios aplicados ao peso, ao equilíbrio, ao uso da coluna vertebral e dos olhos e que produzem tensões físicas pré-expressivas, uma qualidade extra-cotidiana de energia que vai tornar o corpo teatralmente "decidido", "crível", "vivo". Desse modo, a presença do ator, o seu bios-cênico, conseguirá manter a atenção do espectador antes de transmitir qualquer mensagem. A força da "presença" do ator não é algo que está, que se encontra aí, à nossa frente. Eugênio Barba nos fala da "presença" como uma contínua mutação que acontece diante de nossos olhos.
As técnicas cotidianas do corpo são em geral caracterizadas pelo princípio do esforço mínimo, ou seja, alcançar o rendimento máximo com o mínimo uso de energia. As técnicas extra-cotidianas, ao contrário, buscam o máximo de energia quanto mais mínimo é o movimento. Etimologicamente, energia significa "entrar em trabalho".

Barba vai encontrar princípios comuns, recorrentes, que norteiam este estado pré-expressivo do ator e que se encontram por trás da representação em diferentes lugares e épocas, como:

Equilíbrio - um equilíbrio extra-cotidiano e que ele chama de "equilíbrio de luxo" ou equilíbrio permanentemente instável, que vai gerar uma série de tensões no corpo e vai exigir um esforço físico maior, dando vida e dinamicidade à ação.

Dilatação - Eugênio Barba diz que um corpo - em - vida é mais que um corpo que vive. "Um corpo - em- vida dilata a presença do ator e a percepção do espectador (...) o corpo dilatado é acima de tudo um corpo incandescente, no sentido científico do termo: as partículas que compõem o comportamento cotidiano foram excitadas e produzem mais energia, sofreram um incremento de movimento, separam-se mais, atraem-se com mais força, num espaço mais amplo ou reduzido".

Energia - Barba define como "a potência nervosa e muscular do ator". Estudar a energia do ator, segundo ele, significa examinar os princípios pelos quais o ator pode modelar e educar sua potência muscular e nervosa, de acordo com situações não-cotidianas. No oriente vamos encontrar vários termos que designam energia e que Barba nos dá como exemplos: a palavra Koshi, no Japão, define a presença do ator em cena e refere-se a uma parte específica do corpo humano: ao caminhar, os atores bloqueiam o quadril, evitando que ele siga os movimentos das pernas. Dois tipos de tensões são criados no corpo - na parte inferior (as pernas que devem mover-se) e na parte superior (o tronco e a coluna vertebral), que está comprometida, forçando para baixo, sobre o quadril. Isto vai pedir um equilíbrio peculiar, onde o tônus muscular do ator é alterado, precisando usar muito mais energia e fazer maior esforço do que quando caminha cotidianamente. Em Bali, o termo usado para descrever a presença do ator, é Bayu, que significa "vento", "respiração" e que se refere à distribuição correta da energia. No teatro Butoh encontramos a energia da neblina, da água, da pedra. Em Zeami, fundador do Teatro Nô, encontramos três tipos de energia, pelas quais seus atores são guiados - velho, mulher, guerreiro - e que nada tem a ver com sexo, mas maneiras diferentes de usar o mesmo corpo por meio de diversos tipos de energia. No ocidente atribuímos ao termo "anima" a energia feminina e ao termo "animus" a energia masculina. Barba ainda nos diz que energia não é esse ímpeto externo, esse excesso de atividade muscular e nervosa, mas se "refere a algo íntimo, algo que pulsa na imobilidade e no silêncio, uma força retida que flui no tempo sem se dispersar no espaço."
 
Oposição - onde cada ação é iniciada na direção oposta à qual se dirige, como na Ópera de Pequim. O termo hippari hai (japonês) significa puxar para você alguém que por sua vez lhe puxa. No corpo do ator esta oposição encontra-se entre a parte superior e a inferior e entre a anterior e a posterior. Em Bali, os atores-bailarinos constroem a sua presença cênica através da dança das aposições entre o forte, duro, vigor (Keras) e o delicado, suave, terno (Manis). Na Índia, o princípio da oposição é chamado tribhangi, que significa três arcos e tem a forma de um "S" (cabeça, tronco, pernas). Esta oposição acontece também através do trabalho com a resistência; por exemplo, ao ir para frente, o corpo é puxado para trás; ao ir para trás, o corpo é puxado para frente; ao descer, o corpo é puxado para cima, e assim, com cada parte do corpo, com as pequenas partes. A oposição entre uma força que empurra a ação e outra que a retém - uma série de regras que contrapõem uma energia usada no espaço a uma energia usada no tempo, é como se a ação não terminasse ali onde o gesto se detém no espaço, mas continuasse muito mais além.

Corpo Decidido - diferente de decidir - eu não decido, já estou decidido. "Sats" é a palavra usada por Eugênio Barba para designar esta qualidade corporal: momento no qual se está a ponto de agir, o instante que precede a ação no espaço, quando toda a energia já está aí, preparada para intervir, porém suspensa, e compromete o corpo inteiro do ator. É a mola antes de soltar, "o arco curvado e estirado antes da mira, a pressão das águas sobre o dique", como diz Decroux - impulso e contra impulso, estar "pronto para". Na linguagem de Meyerhold, Barba encontra o termo "predigra", ou pré - atuação para designar o "sats"; "a pré - atuação é precisamente um trampolim, um momento de tensão que se descarrega na representação. A atuação é uma coda (termo musical, em italiano no texto original), ao passo que a pré - atuação é o elemento presente que se acumula, se desenvolve e espera resolver-se." Para Grotowski este antimovimento "pode ser realizado em diferentes níveis, como uma espécie de silêncio antes do movimento, uma espécie de silêncio cheio de potencial, ou pode ser realizado como uma espécie de suspensão da ação num momento preciso". Barba ainda nos coloca o termo Otkas usado por Meyerhold, que significa "recusa" ou - "na linguagem musical - a alteração de uma nota em um ou dois semitons que interrompe a evolução da melodia e a faz voltar ao seu tom natural". Uma ação brevíssima no tempo, "no sentido contrário, oposta à ação total do movimento: o ato de recuar antes de andar para frente, a flexão antes de erguer-se. O princípio do Otkas implica a precisa definição dos pontos nos quais termina um movimento e se inicia outro, um stop e um go ao mesmo tempo. Otkas é um corte nítido, que suspende o movimento anterior e prepara o seguinte. Permite assim reunir dinamicamente dois seguimentos de um exercício, revela o movimento subseqüente, lhe dá impulso, como um trampolim." Em Bali o termo usado para o "sats", é tangkis - intervenção que permite ao ator evadir-se do ritmo que seguia e criar uma variação no desenho dos movimentos, pontos que separam uma frase da outra e "evitam" que o sentido se perca num fluxo indeterminado de palavras.
 
Pré-Expressividade - não aparece em cena, mas é o trabalho mais criativo do ator, a base sólida da construção, que não se vê, mas está presente. As técnicas extra-cotidianas que caracterizam a vida do ator ainda antes que esta vida comece a querer representar algo. "A pré-expressividade utiliza princípios para aquisição de presença e vida do ator (...), como se, nesta fase o objetivo principal fosse a energia, a presença, o bios de suas ações e não seu significado".
Barba nos fala que em todas as culturas é possível observar o que ele chama de "técnica de aculturação" para o ator-bailarino, técnicas corporais específicas que são distintas das usadas na vida cotidiana. "Os dançarinos modernos e bailarinos clássicos, mímicos e atores de teatros orientais tradicionais recusaram sua "naturalidade" e adotaram outros meios de comportamento cênico, Eles se submeteram a um processo de "aculturação", com maneiras de ficar de pé, andar, parar, olhar e sentar, que são diferentes das maneiras cotidianas (...) uma distorção da aparência usual (natural) a fim de recriá-la sensorialmente de uma maneira fresca e surpreendente, em que o ator-bailarino manifesta uma qualidade e uma irradiação energética que é presença pronta a ser transformada em dança ou teatro." Esta técnica de "aculturação" vai desarticular os automatismos físicos que condicionam o ator (clichês, estereótipos, automatismos sociais, culturais, biológicos) e vai possibilitar-lhe construir um outro corpo, como diz Artaud - "um corpo sem órgãos" - liberto da servidão, do seu automatismo. O ator vai passar por um processo de decomposição do seu corpo, fragmentá-lo e isto exige precisão, pois o trabalhar de maneira genérica, leva a uma ação ineficaz, imprecisa, sem detalhe. Mas esse trabalho de decomposição não pode ser visto no palco - a cena tem que ser fluida. Marco de Marinis nos fala de alguns princípios dessa desmontagem e montagem cênica: "1) Jogo de contrates - depois da decomposição, o corpo é recomposto seletivamente, com variações de energia (qualidade e não quantidade), modulação da energia, tensões, oposições, etc. 2) Não linearidade da ação - para chegar do ponto A ao ponto B, não há nada mais fácil do que seguir em linha reta (lei do menor esforço). No palco não é assim que funciona. A mesma ação pode ser proposta várias vezes por ângulos diferentes. De um ponto a outro, há uma gama de ações sutis, como a construção de uma teia de aranha. 3) Não previsibilidade da ação - o espectador não vai poder prever em qual direção vai o ator. O ator tem que dar a impressão de também não saber para onde vai. Ações de natureza dupla, ambígua, hermafrodita (ação que não se entende a sua natureza de maneira óbvia, clara)."
Louis Jouvet diz que o trabalho deve atravessar duas fases, como nos coloca Eugênio Barba: "um período de dissolução da ordem, dos conhecimentos adquiridos, das certezas e depois um momento de recomposição. A fase de "dissociation" consiste na consciente queda na desordem, no fracionamento dos materiais, no abandono dos planos de interpretação até chegar a uma indeterminação móvel. É o momento de lutar contra tudo que se sabe, não pelo simples gosto do diverso, mas para criar a dúvida em si, suscitar o mistério. A fase seguinte é o trabalho de "association", de síntese dos elementos esparsos onde os atores trabalham para construir seqüências de ações, tentativas de mise-en-scène que utilizam os fragmentos que surgiram na fase de destruição. É a associação desses fragmentos que permite a maravilha, o sentido de novidade e mesmo de aventura que guiam o trabalho do ator. Este jogo de quebra cabeças, de reconstruções, é a descoberta do papel," onde o fio narrativo não é o que dá coesão e coerência a essa complexa construção, mas sim a organicidade, que torna a ação real, ou seja, o fato de que cada fotograma seja montado respeitando aqueles princípios pré-expressivos que convertem o corpo do ator em um corpo - em - vida. Partitura - seqüência de ações físicas e vocais marcadas e fixadas pela memória do corpo - mente do ator a tal ponto que pode ser repetida espontaneamente pelo mesmo. Uma série de detalhes montados sabiamente em seqüência, em que cada subconjunto é também um desenho com seu começo, seu ápice, seu fim e isto de maneira precisa e fundida através de saltos de energia em uma partitura experimentada como um desenvolvimento orgânico . "O caráter real da ação se refere à qualidade do processo. É o que faz o ator existir enquanto ator. (...) Repito, mesmo correndo risco de aborrecer: dizer que a ação do ator deve ser real não quer dizer que deva ser realista. A ação do ator é real se está disciplinada por uma partitura. O termo partitura (utilizado pela primeira vez por Stanislawski e retomado por Grotowski) indica uma coerência orgânica. É em virtude de tal coerência orgânica que o trabalho sobre o pré - expressivo pode ser conduzido como se fosse independente do trabalho sobre o sentido (do trabalho dramatúrgico), e pode orientar-se segundo seus próprios princípios, conduzindo à descoberta de significados não óbvios, instaurando a dialética do processo criativo entre organização e casualidade." Então, segundo Eugênio Barba, podemos compreender a partitura como a exatidão com a qual a ação é desenhada no espaço, a precisão com a qual cada traço é definido, uma série de pontos de partida e de chegada fixados exatamente, de impulsos e contra - impulsos, de mudança de direção, de sats, diferentes qualidades de energia, a velocidade e intensidade - o dínamo ritmo - que regula o tempo de cada seguimento: a métrica da ação, o alterar-se de longas e curtas, de tônicas (acentuadas) e átonas e a orquestração da relação entre as diferentes partes do corpo (mãos, braços, pernas, vozes, olhos, expressões faciais...), que vai possibilitar ao ator a qualidade da sua presença cênica.

Esses princípios recorrentes em várias culturas pesquisadas por Eugênio Barba vêm sublinhar a unicidade de cada ator, de cada grupo, "de cada horizonte histórico cultural - a descoberta dos princípios comuns da presença cênica para aplicá-los à sua própria exploração (...) a identificação com uma história teatral, transcultural, construída por mestres ou criadores de outras culturas. Ele diz ainda que o Teatro Antropológico está baseado numa polarização: a pergunta "quem sou eu?"como pessoa de um determinado tempo e espaço e a capacidade de intercambiar com pessoas estranhas e longínquas no tempo e no espaço. É nessa troca, nessa abertura que vai ser possível vislumbrarmos além do nosso universo conhecido e encontrarmos um novo território. É nesse intercâmbio que "uma cultura pode desenvolve-ser e transformar-se organicamente.

Escrito por Raissa Peniche às 01h16
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TREINAMENTO-BARBA

"Depois de termos trabalhado durante anos juntos, por muitas horas ao dia, não são mais as palavras, mas talvez só a minha presença que pode dizer alguma coisa". (Eugênio Barba)

Qual é o seu motor pessoal? Esta é uma pergunta essencial na experiência teatral de Eugênio Barba. Ele diz que é esse motor pessoal que se tem de buscar por trás das ações e das escolhas das pessoas de teatro. Esse motor pessoal é a "temperatura." Não adianta ter boa vontade, mas carecer de fora motriz. Esse motor está em nosso interior. Não é uma idéia ou uma pessoa, mas compromete cada um na sua totalidade, até as raízes mais profundas de si mesmo.O treinamento é entendido como aprendizado e pesquisa. O corpo é o material desta pesquisa: "o corpo é meu país". Como diz Barba: "o único lugar no qual eu sou sempre: não importa onde eu vou, estou sempre em mim, sempre em meu país. Nunca estou no estrangeiro, nem no exílio, quando não estou separado do meu corpo." Quando Barba diz corpo, está dizendo desta parte da alma que pode ser percebida por nossos cinco sentidos, a respiração vital, o pneuma, o eu total, os mistérios das potencialidades da vida que encarnamos.Neste sentido, o treinamento é a procura desta cultural individual (no sentido de indivíduo e não de individualismo) e única de "nosso país". E para isto é necessário tirar os condicionamentos e os reflexos com os quais estamos acostumados e nos permitir descobrir nossas possibilidades. "O que chamamos de espontaneidade não são mais que reflexos condicionados, reações que realizamos sem nos darmos conta, automatismos que nos atam e dos quais não podemos nos livrar", diz Barba. O treinamento vai fazer surgir uma arquitetura de tensões, diferentes da técnica cotidiana. Uma rede de tensões que se manifesta no ator, restituindo a unidade do espiritual e corpóreo, do masculino e feminino, do repouso e do movimento. Barba exemplifica esta experiência da seguinte forma:" existe uma segurança que é resultado da inércia, da entropia e existe uma segurança que é resultado do dinamismo de forças contrárias, das tensões que se confrontam. Existe a segurança de um monte de pedras esparramadas pela terra. E a segurança do montão de pedras que, através de forças opostas, elevam-se para as alturas, convertendo-se, assim, em arquitetura. A arquitetura ajuda-nos a visualizar esta qualidade das oposições, das tensões, que são as pulsões e o coração de tudo que está vivo. Os componentes básicos das catedrais são pedras, cujo peso as destinaria a cair na terra. Imprevisilvemente, estas pedras parecem não ter peso, aéreas, como se tivessem uma espinha dorsal para cima, com uma intensidade, uma voz que canta, se eleva, voa. É este o segredo da arquitetura, mas também da "vida" do ator: a transformação do peso e da inércia, por meio do jogo das oposições, em energia que voa. O teatro, como a arquitetura, é saber descobrir a qualidade das tensões e modelá-las em ações". Já dizia Gordon Craig: "o teatro é uma arquitetura em movimento."O treinamento busca criar esta nova arquitetura de tensões no corpo do ator, uma nova tonicidade. E neste treinamento existe um fator objetivo e um fator subjetivo.
Fator objetivo: autodisciplina, rigor, exercícios, constância.
Fator subjetivo: temperatura interior, motivação pessoal - a necessidade única do ator que vai fundir qualquer técnica.
O equilíbrio entre o fator objetivo e subjetivo "vai decidir a duração do trabalho em grupo, definindo de maneira in-dividual e social, o ator e o grupo com o qual trabalha". Barba fala de treinamento e não de escola, pois acredita que o treinamento é um encontro com a realidade que se escolheu, "qualquer coisa que se faça, faça-a com todo o seu ser.". Neste sentido ele distingue "período de aprendizagem" e "relação de aprendizagem": O primeiro se refere a uma escola teatral, onde múltiplos professores, segundo os horários, seguem o ritmo dos relógios e ensinam múltiplas matérias. O segundo se refere a uma relação de aprendizagem, na qual uma só pessoa se coloca diante de nós para nos transformar em in-divíduos, nos ajudar a encontrar o "nosso país". Barba nos diz que esta relação "se nutre de amor..." porém, "amor não é só harmonia adocicada. É também aversão repentina, resistência, abandono, desejo de libertação, sensação de afogamento e vontade de entrega total, sem defesa. Amor é tudo que não é morno, é tensão." É a figura do mestre que nos guia ao encontro de nossas próprias respostas. "Um mestre, cuja voz se mistura à voz dos mortos, que nos respondem com nossas palavras."
Barba fala das tradições teatrais, tanto no Oriente como no Ocidente. Estas tradições que elaboram normas para o comportamento dinâmico do ator e que chamamos de codificação. Este trabalho tem como meta sobrepujar o natural, o espontâneo, o automatismo e a construção de uma nova tonicidade muscular: um corpo dilatado. "Matar o próprio corpo", a cultura que o modela e renascer através de novas tensões com a totalidade de suas possibilidades de irradiar vida e de contagiar o espectador. Barba dia que "mata-se o próprio corpo, quando se aprende a utilizá-lo de maneira diferente: uma nova maneira de estar em pé segundo outro eixo de equilíbrio, a caminhar, a locomover-se segundo regras que negam as normas de comportamento cotidiano, como no Teatro Kathakali indiano, a mímica de Decroux, o balé clássico Khon tailandês, o Teatro Nô, o Teatro Kabuki. Esta passagem revela o ator e faz com que o público perceba o bios cênico, uma expressividade anterior à vontade de ser."."Os anos de aprendizado, o treinamento", diz Barba, "permitem ao ator romper as correntes que o atam a um público particular de teatro, linguagem ou cultura. Em outras palavras: permitem ao ator se especializar sem estar especializado"... "a busca de uma técnica pessoal, que é a recusa de toda técnica que especializa. Uma técnica pessoal capaz de modelar nossas energias, sem permitir que se congelem nessa modelagem. É uma busca de uma temperatura própria". É o caminho da recusa: a busca de estar sempre em transição, de "não se afundar em um território especializado".
Para manter esse corpo-em-vida do teatro, é necessário, segundo Barba, alimentar-se de três órgãos.
O primeiro é o órgão do esqueleto e da espinha dorsal, da biologia. É o corpo-técnico que se afasta dos automatismos e do condicionamento da vida cotidiana. É o órgão cuja respiração revela o bios do ator em uma fase pré-expressiva, antes que queira expressar algo. Podemos estudar e analisar esse órgão, desenvolvendo-o conscientemente e transmitindo seu conhecimento aos outros.
O segundo é o órgão da u-topia, do não-lugar, que reside nas entranhas e no hemisfério direito do cérebro. São as bússolas e o superego que o mestre ou os mestres implantaram em nós, durante a passagem da técnica cotidiana para a técnica extracotidiana do teatro. É o sentido, o valor, o imperativo categórico que damos, individualmente, ao nosso ofício. A respiração deste órgão faz com que a técnica se afirme e chegue a uma dimensão social e espiritual. É o ethos do teatro, sem o qual qualquer técnica é somente ginástica, destreza corporal, divisão em lugar de unidade. Também sobre este órgão podemos estar atentos e vigilantes, protegê-lo e transmiti-lo.
O terceiro órgão não se pode pegar. É a temperatura irracional e secreta que torna incandescente nossas ações. Poderia chamar-se "talento". Eu o conheço sob outra forma: uma tensão pessoal que se projeta em direção a um objetivo, que se deixa alcançar e que novamente escapa; a unidade das oposições, a conjunção das polaridades. Este órgão pertence ao nosso destino pessoal. Se não o temos, ninguém pode nos ensinar". É o que Barba chama de "motor pessoal". É esse "motor pessoal", essa temperatura, que se tem de buscar por trás das ações e das escolhas das pessoas de teatro.

Qual é o seu motor Pessoal?
 

Escrito por Raissa Peniche às 01h12
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TEATRO EURASIANO-EUGENIO BARBA

"O aprofundar da própria identidade profissional implica a superação etnocêntrica, até chegar ao descobrimento de nosso centro na tradição das tradições". Barba nos explica que buscar as nossas raízes não implica um vínculo que vai nos amarrar em algum lugar, que vai nos fechar, mas um ethos que vai nos permitir mudar de lugar: "representa a força que nos faz mudar de horizontes, precisamente porque nos mantemos enraizados a um centro".

Ele diz que esta força só acontece em duas condições:
-a necessidade de definir para si mesmo sua própria tradição.
-a capacidade de inscrever esta tradição em um contexto que a conecta com diversas tradições.

Ao criar o ISTA (Escola Internacional de Antropologia), Barba busca justamente possibilitar a troca entre estas tradições, busca reunir mestres do teatro oriental e do teatro ocidental, no sentido de encontrar um substrato comum na arte do ator - "o terreno da pré-expressividade". Princípios similares que, apesar das diferentes formulações, vão resultar numa maneira de pensar e permitir o diálogo entre as pessoas de teatro vindas das mais diferentes tradições.

O Terceiro Teatro
Indica um modo de modelar os próprios "porquês". Não é um estilo teatral, nem uma aliança entre os grupos, tampouco é um movimento ou corporação internacional, nem uma escola, nem uma estética ou uma técnica.".Barba diz que Louis Jouvet fez uma afirmação que ressoou como um enigma: "Existe uma herança de nós para nós mesmos."

A partir desta afirmação ele levanta algumas perguntas essenciais:
-ainda possuo em minhas mãos a herança que eu mesmo construí?
-conheço ainda seu valor ou também isto foi corroído pelo tempo, pela prática da profissão, pelo retorno ao centro esmagado do planeta teatral?

Ele diz que este enigma e estas perguntas pertencem ao "terceiro teatro".
"Quando Jouvet falava da herança de nós para nós mesmos, reassumia o sentido de muitas histórias que haviam mudado o espírito do teatro no século XX. Eram histórias de pessoas, não de instituições. Eram histórias de estrangeiros no teatro. Quem são estes estrangeiros? Frequentemente em nossos discursos surgem nomes de "mestres" e "pais fundadores": Craig, Stanislawski, Copeau, Brecht, Artaud, Meyerhold, Grotowski e alguns poucos mais." Barba nos fala que todos estes mestres entraram no teatro levando uma "nostalgia" pessoal, diferente para cada um deles: a religião, a anarquia, a revolução, o tempo do homem novo e uma inextinguível rebelião individual. Eles construíram a partir desta nostalgia e também, das deficiências: "Stanislawski não conseguia se aceitar como ator; Artaud não conseguia concretizar suas visões; Brecht não sabia viver sem uma ortodoxia, mas ao mesmo tempo não conseguia adequar sua prática artística carregada de individualismo e anarquia a essa ortodoxia."Construíram a partir daí um sentido autônomo para a ação de fazer teatro. Todos estes mestres, quando se arriscaram em um terreno desconhecido, ainda não possuíam fama suficiente para se resguardarem, mesmo assim resistiram à força centrípeta do planeta teatral. Resistiram à tentação de "estabilidade", de "segurança" que o centro do planeta teatral parece assegurar. Inventar o sentido da própria ação de fazer teatro implica, segundo Barba, "vontade e capacidade de distanciar-se dos valores no auge do centro do planeta teatral e força necessária para penetrar na órbita dos anéis." É esta força que manteve e mantém vivos os grupos teatrais que, com sua longevidade, nos faz refletir sobre a busca de sentido, ou seja, o descobrimento pessoal do ofício. E Barba nos diz que a eficácia desse ofício transforma "uma condição em uma vocação pessoal e aos olhos dos demais, em um destino que é uma herança".Sobre o sentido do ofício, Barba ainda nos fala: "ofício quer dizer a construção paciente de uma própria relação física, mental, intelectual e emotiva com os textos e com os espectadores, sem uniformizar-se com os modelos que regulam as equilibradas e convalidadas relações vigentes do centro do teatro. Quer dizer, compor espetáculos que saibam renunciar ao público usual e saibam inventar os próprios espectadores.Tudo isso é ofício: técnica do ator, da cena, da dramaturgia, competência administrativa. Só um pequeno resto é força de ideal e espírito de rebelião." Mas este pequeno resto é o que Barba diz ser o essencial e tem a ver com uma parte de nós sujeita a "contínuas obnubilações, a períodos de silêncio, de cansaço - um mar fértil e tenebroso que, às vezes, parece inundado de luz e, outras, nos assusta e se reduz à infecunda amargura do sal" (...) "cada um deveria ser capaz de traduzir estas metáforas à sua linguagem pessoal".

Escrito por Raissa Peniche às 01h10
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